sexta-feira, 24 de julho de 2026

Consequências… II

  Aprovada a moção de confiança por uma maioria absoluta de 37 deputados (metade mais um) na passada sexta-feira, o governo que até então limitava-se à gestão corrente passou a ter plenos poderes e a ser politicamente responsável apenas perante a Assembleia Nacional. As consequências resultantes da forma como foi conduzido o processo de transferência de poderes na sequência das eleições de 17 de Maio já se fazem sentir. O presidente da república, em declarações à imprensa, quando questionado sobre o processo em que a pessoa do primeiro-ministro é acusada apelou à calma da sociedade e reiterou que o PM conserva toda a legitimidade democrática para continuar a exercer as suas funções enquanto o processo segue os trâmites legais.

É evidente que as consequências não vão ficar por aí. Aliás, o facto do PR vir dar explicações sobre o processo e justificar a sua escolha para primeiro-ministro, desculpando-se com a posição do MpD que diferentemente da UCID não se referiu à condição de arguido do indigitado primeiro-ministro, revela a sua fragilidade. Era público desde dos fins de Dezembro último que Francisco Carvalho já tinha sido constituído arguido no processo que agora é acusado de crimes. Depois de ter decidido ignorar a situação e avançar com a indigitação, o PR não assume que, perante a acusação deduzida, o facto novo da acusação pelo Ministério Público, devia ter ponderado uma saída para o imbróglio quando o governo nomeado era ainda, segundo os constitucionalistas, uma espécie de governo provisório porque sujeito à aprovação de uma moção de confiança para ser efectivo.

A nomeação do primeiro-ministro é sempre uma escolha do PR mesmo se constitucionalmente deve primeiro ouvir os partidos e ter em conta os resultados eleitorais. Nas eleições legislativas são eleitos os deputados e não um primeiro-ministro apesar dos partidos darem a conhecer os respectivos candidatos ao cargo. Nos regimes parlamentares, o PR pode recusar a proposta de PM do partido vencedor e até pode acontecer que nomeie um candidato de um partido que não conseguiu a maioria dos votos nas eleições desde que que ele consiga uma maioria de apoio no parlamento, como foi no caso do António Costa, em Portugal, em 2016.

Deparando-se perante um caso de acusações graves apuradas em inquérito criminal contra membros do Governo, em especial o PM, que, para os referidos constitucionalistas, configura como um dos legitimante da competência presidencial de demissão do governo, no quadro das suas funções de assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, o PR devia ter encontrado uma saída que poupasse ao país situações mais complicadas no futuro. Considerações eleitorais para um presidente da república em fim de mandato e certamente à procura de renovação no cargo poderão ter pesado na decisão de se omitir quando mais se precisava de um árbitro e moderador do sistema político.

O facto é que o problema vai persistir e provavelmente agravar-se ao chegar o momento em que a requerimento do PGR dirigido à Assembleia Nacional para prosseguimento do processo se solicitar a suspensão do cargo de PM. Se houver recusa da maioria parlamentar o país terá que enfrentar os consequentes desprestígio e perturbação no funcionamento das instituições que irão obrigar a uma tomada de posição do PR. Se se avançar com o julgamento e no caso de condenação não se pode excluir a hipótese de, segundo a lei 85/2005 de crimes de responsabilidade dos titulares de cargos políticos, penas de perda de mandato, de demissão do cargo ou de impossibilitado de ser reeleito ou exercer qualquer outro cargo político num período de dois a cinco anos.

A haver um desfecho nesse sentido não se pode excluir a demissão do primeiro-ministro e consequente demissão do governo e instabilidade político-institucional que se iria criar. Talvez não seja de grande monta a dimensão do confronto entre a Assembleia Nacional e o poder judicial em caso de recusa de suspensão do cargo para prosseguimento do processo. De qualquer forma, mesmo sendo do mesmo partido, um novo governo não deixará de ser uma quebra no processo de governação do país que na sua esteira pode levar a crispação política a níveis nunca vistos e provocar ressentimentos profundos em certos sectores do eleitorado. Tudo isto podia ter sido evitado se, no momento certo em que o desenlace no acontecimento se tornou inevitável com a apresentação pública da acusação de 26 crimes ao actual primeiro-ministro pelo Ministério Público, fossem tomadas as medidas certas para sanar a situação.

Entrementes o que se vai ter é um governo com o primeiro-ministro de alguma forma distraído ou não totalmente focado na actividade governativa devido à existência de processos criminais e à necessidade de preparem a respectiva defesa. Para evitar isso é que, normalmente, políticos em funções governamentais, quando constituídos arguidos, pedem demissão do cargo. Um outro aspecto a ter em consideração é o impacto externo desse tipo de acusações, como se pode constatar logo de imediato nas declarações do governo de transição da Guiné-Bissau na semana passada em reacção ao apelo à libertação do líder do PAIGC. Preocupantes também serão as tentativas de retaliação política contra o Ministério Público que resultam da acusação feita pelo PM e pelo PAICV de que essa magistratura teria sido movida por razões de natureza política.

Claramente que as referências à revisão constitucional no respeitante ao Procurador-Geral da República e ao Tribunal de Contas têm como objectivo acertar contas com essas duas instituições. Apresentadas ostensivamente com o objectivo de aumentar a independência em relação ao poder político está-se, de facto, a inaugurar uma outra forma de exercer pressão política. É típico dos populistas tanto da direita como da esquerda ameaçar com a revisão da constituição. Dá vazão aos sentimentos antisistema que cultivam. Há poucos meses atrás, em sede própria, no parlamento, podiam ter debatido essas questões quando as duas bancadas aprovaram com maioria qualificada de dois terços as alterações nos estatutos das magistraturas. Aparentemente essas preocupações não existiam, mas agora estão no topo da agenda.

Na mesma linha vai-se querer avançar com a nomeação do PGR e do presidente do Tribunal de Contas. Têm o mandato expirado há mais de um ano e é, de facto, de maior importância que sejam nomeados novos titulares ou renovados os mandatos. A questão que se coloca é se o interesse público e a preocupação com a credibilidade das instituições irão nortear todo o processo de nomeação. E se é de esperar a devida ponderação no processo de escolha dos novos titulares de quem foi auditado e acusado de crimes por essas duas entidades e que reagiu procurando deslegitima-los ao considerar caducos os seus mandatos e ao apontar motivações políticas nos procedimentos seguidos no cumprimento da lei. A atitude institucional e ética que têm assumido não dá garantia de tal elevação.

Uma ideia que vem sendo forçada na sociedade é que conseguir a maioria absoluta sobrepõe-se a tudo. A democracia resultaria da aplicação do princípio maioritário sem preocupação com os limites impostos pelos direitos fundamentais e pelo respeito pelo primado da lei e da Constituição. O interesse comum seria definido por quem tem maioria, as leis seriam adequadas às suas necessidades e prioridades e a justiça subordina-se se ao poder purificador do voto maioritário. Daí que patriota é a maioria e a oposição é aceite se juntar em consensos com a maioria. Normas e procedimentos democráticos são úteis se forem convenientes. Quem ganha eleições fica acima da lei.

Nesse sentido para conseguir esses intentos não democráticos promove-se no país uma espécie de “guerra mental” que segundo um teórico russo Andrey Ilnitsky tem como alvo a identidade, a memória histórica, os valores, as tradições e o próprio código cultural através do qual as pessoas interpretam a realidade e visa moldar a nação como se quer. . Sem se darem conta, segundo um outro autor, as pessoas sujeitam-se a um “esforço sistemático para remodelar a consciência pública, enfraquecer as instituições e possivelmente alterar toda uma civilização”. Há que pôr um travão neste processo, mas infelizmente a falta de lealdade para com os princípios e valores constitucionais impedem que os principais protagonistas políticos assumam os seus papeis e estabeleçam o equilíbrio no sistema. O desejo de poder pessoal parece sobrepor-se a tudo. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1286 de 22 de Julho de 2026.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Consequências…

 A Assembleia Nacional reúne-se na sexta-feira, dia 17 de Julho, para apresentação e apreciação do programa do novo Governo e votação da moção de confiança. A aprovação da moção de confiança é necessária para que o governo assuma plenamente os seus poderes. A sua não aprovação levaria à demissão do governo. Assim é porque o sistema de governo é de forte pendor parlamentar, sendo o governo politicamente responsável perante a Assembleia Nacional, e não ao presidente da república. Ou seja, para governar, não basta que um partido tenha ganho as eleições. É fundamental que, através da moção de confiança, demonstre ter uma maioria parlamentar de suporte à política geral que pretende realizar.

A apresentação do programa do governo numa sessão especial do parlamento é um momento ímpar para o primeiro-ministro dirigir-se à Nação, dar a conhecer as linhas gerais das suas políticas e submetê-las ao contraditório dos deputados da oposição. É um pontapé de saída para o jogo democrático da nova legislatura que, ao criar um quadro de debate e de fiscalização de políticas a ser propostas e implementadas, vai possibilitar a avaliação do progresso realizado e o confronto com políticas alternativas. Pela importância da sessão especial o regimento da AN estipula um tempo máximo de três reuniões consecutivas, sem período de antes da ordem do dia. Programar o futuro num momento tão complexo da vida do país e também do mundo, com as suas incertezas e imprevistos, aconselha que não se encurte o tempo de debate e que, pelo contrário, se faça o melhor do que é possível disponibilizar.

Para uma discussão mais produtiva entre o governo e os outros sujeitos parlamentares, seria talvez proveitoso que o programa do governo não aparentasse ser essencialmente um catálogo de boas intenções de tudo fazer “para todos”. De facto, num país de recursos escassos, com orçamento rígido, devido à alta percentagem de despesas obrigatórias e a resistências a reformas da administração pública que afectam funcionários, conseguir libertar recursos para realocar em sectores importantes na base da gratuitidade não será certamente tarefa fácil. E só boa intenção não chega.

Também não será pela via da eliminação de “gorduras” localizadas no elenco governamental, no “excessivo” número de deputados na Assembleia Nacional e no “pesado” custo dos estudos, que em geral acompanham os projectos financiados pelos parceiros externos, que irá garantir isso. Aliás, a adoção dessas medidas não decorre da intenção de tornar mais eficiente a utilização dos recursos públicos. A a escolha dessas gorduras é feita não por querer maior eficiência na utilização de recursos públicos, mas mais pela ressonância que faz com os preconceitos demagogicamente alimentados contra os políticos e também contra a democracia. É característico de uma certa esquerda, que ainda reclama algum ascetismo bolchevique, ou se revê no ideal do suicídio da pequena burguesia, afirmar superioridade moral sobre os outros actores políticos.

Nessa perspectiva, basta mostrar no programa do governo as suas intenções e elencar resultados sem revelar como se vão materializar, quais as prioridades, como vai ultrapassar as resistências, como vai lidar com os prejudicados pelas reformas, qual o horizonte temporal e o passo de concretização e como vai encadear as medidas de política para aumentar as probabilidades de sucesso. Parece que não faz mossa o facto de a visão de futuro para o país que é apresentada assentar no mesmo discurso das vantagens comparativas de sempre - “localização geoestratégica privilegiada, uma diáspora dinâmica e qualificada, estabilidade institucional, capital humano crescente e uma juventude criativa e empreendedora” - cuja correspondência com a realidade é no mínimo precária. Procura-se manter o ilusionismo com autoproclamações de ser o “partido da Independência, da construção do Estado e da transformação nacional”, ou seja, os únicos agentes das mudanças em Cabo Verde nos mais de cinco séculos da sua existência.

A realidade de que é preciso crescimento económico para ter país inclusivo, combater a pobreza e prosperar não é assumida explicitamente. E isso é complicado porque considerando o estádio de desenvolvimento de Cabo Verde entre os países insulares é da maior importância que haja uma aceleração no crescimento para poder responder às expectativas crescentes das pessoas, das famílias e da sociedade. Entretanto, ao nível do programa do governo o foco nas promessas de redistribuição de rendimentos tende, na prática, a dirigir a governação para um caminho que não difere muito do tipo de “gestão corrente” que se vinha acusando o MpD de estar a fazer e que, de acordo com o discurso produzido pela então oposição, gerava uma dinâmica económica que não beneficiava os mais vulneráveis.

Em consequência, o que poderá vir a verificar-se, por um lado, é que nem se tem o acréscimo no potencial de crescimento porque as reformas não são feitas e, por outro, a gestão da escassez que se professa fazer em nome da luta contra as desigualdades acaba por produzir distorções que podem enveredar por caminhos complicados. É o que parecem evidenciar as recentes investigações a actos da câmara da Praia pelo Ministério Público e subsequente acusação deduzida, dirigida a autarcas, personalidades e outras entidades, em vários crimes, entre os quais crimes de responsabilidade política. Isso, em geral, acontece quando se cria um ambiente político num quadro, não de foco no crescimento, na promoção da autonomia individual e no incentivo à iniciativa privada mas, pelo contrário, de gestão de escassos recursos, de criação de dependência do Estado e de aproveitamentos da vulnerabilidade para ganhos políticos eleitorais.

Se normalmente tais situações revelam as fragilidades das instituições em cumprir e fazer cumprir as normas e os procedimentos democráticos, no caso actual, as consequências ultrapassam o âmbito da câmara da Praia para afectarem directamente o governo do país. E é assim porque, entre o início das investigações e a dedução da acusação, o então presidente da CM da Praia passou a primeiro-ministro depois das eleições legislativas de 17 de Maio. O problema que se põe é se o país pode ficar na contingência de ter o PM durante um tempo indeterminado, considerando a possibilidade de recursos sucessivos, a ser julgado por vários crimes, entre os quais os de atentado contra o Estado de Direito. Também de eventualmente vir a ser condenado, com perda de mandato ou impossibilidade de exercício qualquer outro cargo durante período de dois a cinco anos.

Curiosamente, nas audições aos partidos políticos com assento no parlamento que precederam a indigitação do primeiro-ministro pelo presidente da república, os representantes da UCID não fingiram ignorar que a escolha do PR poderia recair sobre quem, segundo um comunicado de 12 de Dezembro, era arguido numa investigação criminal, e alertaram para possíveis consequências. O PR fez a sua escolha e prosseguiu com a nomeação do governo. Agora com a dedução da acusação pelo Ministério Público o país vê-se num imbróglio. A capacidade do PR de intervenção para assegurar o regular funcionamento das instituições, entretanto, diminuirá a partir da sexta-feira, dia 17, quando o actual governo de gestão, após a apreciação do seu programa na AN e a votação da moção de confiança, passar a ter plenos poderes e a ser politicamente responsável apenas perante o parlamento.

A exemplo de outras democracias que por actos ou omissões não cuidaram o suficiente de aprofundar uma cultura de respeito pelo cumprimento estrito das normas e procedimentos democráticos, Cabo Verde vive o seu momento em que as consequências de complacência com certos comportamentos políticos fazem-se sentir e tem repercussões complicadas na imagem do país. Também não se ganhou nem com a qualidade das propostas de governação, nem com um maior grau de responsabilidade e lealdade dos líderes para com os seus partidos e para com a democracia. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285 de 15 de Julho de 2026.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Colisão de princípios e valores poderá vir a agravar-se

  Na Nova Legislatura ainda nos seus primórdios já se notam sinais de sobressaltos que irá sofrer nos próximos cinco anos com foco na Assembleia Nacional, na relação entre o governo e o parlamento e entre a maioria e a oposição em particular. A colisão de princípios e valores poderá vir a agravar-se. Logo na primeira intervenção, a presidente procurou rebatizar a Assembleia Nacional como a Casa do Povo, à moda das chamadas democracias populares ou recuperando o popular da assembleia nacional popular do antigo regime pós-independência. Ou seja, a AN deve ser uma casa do povo onde a soberania é directamente exercida pelo povo e não ser meramente a Casa dos deputados ou dos Representantes, mesmo que eleitos de forma livre e plural e com mandato fixo.

Isso porque questiona a democracia representativa quanto à real representatividade do deputado, e a contrapõe à democracia participativa cujos “contributos“poderiam remediar supostas deficiências nesse domínio. Desrespeito pelas regras democráticas e descrédito da instituição seriam as consequências de tais deficiências e que poderiam ser ultrapassadas com maior participação política e social, resgatando no processo o protagonismo de outrora. O problema dessas elucubrações é que, não obstante os seus supostos defeitos, ainda é a democracia representativa e liberal o menos pior de todos os regimes políticos, incluindo as democracias nacionais ou populares com casas do povo onde “o partido é o povo, e o povo é o partido”. Também é o único regime político que historicamente propicia prosperidade na liberdade.

Um outro ponto onde poderá haver colisão é na relação entre o governo e a Assembleia Nacional. O sistema de governo em Cabo Verde é parlamentar significando isso, entre outras características, que o governo é responsável perante o parlamento. Nesse sentido, o governo nomeado pelo presidente da república só ganha plenos poderes depois de ver aprovada a moção de confiança. Com a pressa demonstrada em vários momentos do processo de transferência de poder pós as eleições de 17 de Maio, causa alguma estranheza o facto de ser ter marcado para um único dia, sexta-feira, 17 de Julho, a apresentação e discussão do programa do governo para a legislatura, quase um mês depois do dia da tomada de posse.

De facto, a Constituição e o Regimento da Assembleia Nacional estipulam o prazo de 15 dias, sob pena de demissão, para o novo governo entregar o seu programa ao parlamento que, por sua vez, no prazo de 15 dias deverá discuti-lo num máximo de três reuniões plenárias consecutivas, culminando na aprovação da moção de confiança. Mas na prática não tem que ser assim. Um governo ansioso por assumir plenos poderes poderia ter antecipado a entrega do seu programa e de seguida acertar com a Assembleia Nacional a sua discussão e a aprovação da moção de confiança o mais rapidamente possível. Por outro lado, estranha que queira desperdiçar num só dia a oportunidade única de com tempo, três dias, apresentar o seu programa de governação à nação e debatê-lo em sede do contraditório e, no processo, gerar vontade política e social para o implementar.

Não augura nada de bom o que pode aparentar alguma relutância em lidar com o parlamento. É verdade que nem o primeiro-ministro nem muitos dos ministros têm experiência parlamentar, mas para o funcionamento de um sistema de governo de forte pendor parlamentar é essencial que a dinâmica parlamentar - envolvendo de um lado o governo e a sua maioria e do outro a oposição, seguindo os procedimentos democráticos - aconteça. Pela via do debate, dos confrontos políticos, das negociações e acordos é que as várias competências, legislativa, de fiscalização política, de responsabilidade política perante os eleitores e em relação aos órgãos externos vão se concretizar.

Não aproveitar o tempo regimental para debates essenciais ou procurar contornar a oportunidade de os realizar e confrontar a nação com as opções de políticas e as suas consequências fragiliza o sistema político no seu equilíbrio de poderes e prejudica a acountability dos sujeitos parlamentares perante a sociedade e os cidadãos. Dúvidas quanto à realização do debate sobre o Estado da Nação que constitucionalmente deve ter lugar no fim da sessão legislativa, ou seja, até o dia 31 de Julho não devem existir.

O argumento que a nova legislatura começou em Junho não invalida o debate que é sobre o estado da nação e não especificamente sobre as políticas do governo que são avaliadas em vários outros momentos em interpelações, debates mensais e perguntas ao governo. Aliás, nos Estado Unidos onde o State of the Union foi institucionalizado o facto do presidente iniciar funções a 20 de Janeiro não impede que em Fevereiro se dirija ao congresso numa sessão conjunta do Senado e da Casa dos Representantes, com a sua avaliação da situação do país, e aproveite a oportunidade para expor as suas opções de política e mobilizar apoio para as implementar. O mesmo aconteceu recentemente (2025) em Portugal com o governo a tomar posse em Junho e a debater sobre o estado da Nação em Julho.

Alguma relutância da parte do governo na relação com o parlamento pode complicar ainda mais a situação actual em que tem uma maioria à justa para fazer aprovar as suas iniciativas políticas. Muito diálogo, negociações e compromissos vão ser exigidos, particularmente quando não recebeu do eleitorado os votos para fazer avançar as reformas que elenca no programa do governo. Propõe algumas mudanças só possíveis com a revisão de Constituição, designadamente a diminuição de deputados para um número inferior a 66, ou então a reconfiguração dos órgãos constitucionais como o Procurador-Geral da República e o Tribunal de Contas. Outras ainda como, por exemplo, na criação das regiões administrativas irão exigir maiorias qualificadas de dois terços dos deputados.

Para conseguir o necessário suporte das forças da oposição não é certamente pela via, como é feita na moção de confiança, do apelo ao apoio responsável e patriótico do parlamento. Denota aí uma pretensa superioridade moral que agride a todos. Além disso, quanto às tais reformas, umas têm na sua base em acerto de contas individuais que não têm lugar na política com foco no bem comum e outras são demagógicas e voltadas para descredibilizar a democracia representativa. Outrossim, a concentração tendencial do poder no executivo tende a desvalorizar o papel do parlamento. Resta, pois, às outras forças políticas exercerem os seus direitos de oposição com inteligência e habilidade táctica para obrigar o parlamento a cumprir na plenitude das suas funções, em defesa do princípio da separação dos poderes.

Num quadro em que da parte do governo e a sua maioria já se provou que há unidade política de acção, de discurso e de projecto político fica para a oposição a opção de se mostrar unida, aguerrida e ciosa dos seus direitos. Não vai ser fácil com tiros autoinfligidos revelando fracturas graves no grupo parlamentar e desnorte com renúncia precipitada do líder, ao mesmo tempo que apetites repentinos para consenso fragilizam posições negociais fortes no futuro. No início de um mandato em que não se procura esconder hostilidade à democracia representativa e liberal há que reconhecer que quando está na ordem do dia o “resgate de outrora” não se pode fazer o papel do idiota útil de Lenine e ver-se num honesto jogo de estafetas.

Não há feito ou ganho algum que a nação consiga realizar hoje ou em qualquer momento no passado ou no futuro que fica livre da voracidade e do embraço dos melhores filhos. Nem a selecção nacional, regressada vitoriosa da Copa do Mundo evitou vergar-se sob o peso das medalhas de Amílcar Cabral ou de ser designado combatente em homenagem aos míticos combatentes de outrora. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Em defesa do liberalismo

 A exemplo de outras democracias contemporâneas, Cabo Verde vê perigar os princípios da democracia liberal que, fundada no 13 de Janeiro, teve a sua consagração na Constituição de 1992. De vários sectores vêm incursões contra os pilares do liberalismo que na sua essência assenta, como relembrou Adrian Wooldridge no seu livro “O Centro Revolucionário”, "na crença que a sociedade começa com o individuo em vez do colectivo, que o poder é perigoso e deve ser restringido e que a verdade se alcança através da discussão aberta". Em alguns países essa deriva iliberal vem-se alimentando da crise da democracia que se arrasta desde a grande recessão de 2007-08 e da crise da dívida soberana dos anos seguintes e ganhou ímpeto com a crise migratória na Europa e na América. Em Cabo Verde, uma democracia mais jovem, as origens são outras.

O regime de partido único poderá ter terminado com maiorias qualificadas de mais de dois terços dos votos em duas eleições sucessivas, mas subsistiu nas instituições e nos aparelhos ideológicos do Estado, em particular no sistema educativo e na comunicação social pública, a cultura política ideológica que privilegia o colectivo sobre o indivíduo. As antigas organizações de massa do regime sobreviveram com destaque para os sindicatos e as mulheres e de forma mais camuflada o engajamento político dos jovens e das crianças. Evidentemente que isso criou resistência à emergência de uma cultura de autonomia seja individual como de grupos na sociedade e à assunção de responsabilidade individual, social e cívica que vem com o exercício dessa autonomia, resistindo ao paternalismo anterior.

O Estado herdado mesmo sob um outro quadro jurídico-constitucional limitativo de poderes mostra-se nostálgico em relação a outros tempos em que recorrendo à reciclagem da ajuda externa podia ser paternalista e criar clientelas passíveis de manipulação eleitoral. Por causa disso, persiste resquícios da cultura revolucionária de não cumprir sempre a lei ou de a contornar, contando com a falta de sensibilidade ou de atenção da sociedade em relação ao tempo mais longo e alguma ineficácia na actuação da justiça e à fragilidade de instituições fiscalizadoras. O sentido de impunidade, que por causa disso em certas circunstâncias específicas pode ser desenvolvido por algum actor político, acabará por acelerar ainda mais a tendência para o executivo não se deixar controlar ou ser limitado por outros poderes.

Nos tempos actuais uma componente do liberalismo que está em perigo iminente é a própria verdade que deliberadamente se propõe minar com desinformação sistemática, com negação de factos e relativismos e a imposição de verdades alternativas. Neste particular, Cabo Verde é especialmente frágil considerando o peso enorme da narrativa histórica e cultural imposta pelo regime de partido único que impregna todo o sistema cultural, educativo e comunicacional do país para além das outras instituições do Estado, a começar pelo próprio presidente da república. Ora, os princípios e valores subsumidos nessa narrativa são profundamente iliberais.

Daí que a razão por que a democracia cabo-verdiana - que formalmente funciona com uma base referencial liberal mas se vê a si própria como nação através de uma narrativa politico ideológica antiliberal - vive com grandes tensões. A crise das outras democracias porque são mais velhas e maduras resultam do cansaço e do desgaste de décadas. Em Cabo Verde pode-se dizer que a crise da democracia começou com a queda do partido único. Quase que imediatamente surgiram queixas sobre os partidos, sobre a partidarização do Estado, sobre a excessiva crispação política e sobre os políticos de teor similar ao que se nota nos países com largos anos de democracia.

Na realidade as críticas ao regime democrático não resultam realmente da prática actual da democracia. Acabam por ser uma forma camuflada de questionamento da sua própria legitimidade. E é assim porque, em Cabo Verde, com a implantação da democracia quem foi a oposição foi o anterior partido único. Daí que o país não beneficiou do grau de lealdade constitucional, com convergência de princípios e valores, que é habitual em outras democracias, nos partidos que se alternam no governo. Houve sempre perturbação na consolidação de uma cultura democrática.

As tensões daí resultantes tiveram um efeito erosivo na democracia que mais cedo ou mais tarde acabaria por se manifestar. O reforço nos últimos anos da narrativa política-ideológica do regime anterior com a cumplicidade do governo do MpD e a defesa inconsistente dos princípios liberais da Constituição de 92 precipitou tudo. As portas abriram-se para o populismo de esquerda que depois de capturar o PAICV ganhou o país nas eleições legislativas de 17 de Maio.

É expectável que agora aumentem as pressões anti-liberais. O populismo apregoado que diz apostar no sector primário para criar empregos, fixar jovens nas ilhas e reter “cérebros em fuga” para o estrangeiro dificilmente conseguirá mais do que enredar as pessoas nas malhas da dependência do Estado. De facto, com desenvolvimento quer-se, pelo contrário, promover a iniciativa e autonomia dos indivíduos. Nesse sentido pode tornar-se a agricultura e a pecuária mais produtivas, libertando mão-de-obra para os sectores da indústria, do comércio e dos serviços. Com isso, potenciam-se os investimentos na educação e formação dos jovens e há impacto global na produtividade, competitividade e crescimento do país. Não o contrário, fixando-os na terra a viver de economias de subsistência ou de remessas dos familiares.

Tentativas de exercício de poder sem restrições também poderão aumentar. Os sinais são claros. A notícia da semana passada em que através de um despacho Francisco Carvalho renuncia à Câmara da Praia por incompatibilidade. Vê-se por aí a prática de interpretação da lei na base de conveniência, que se tinha assistido na aprovação dos orçamentos da câmara municipal da Praia no seu primeiro mandato, em total desacordo com a prática estabelecida em todos os municípios do país durante 30 anos. O ataque de carácter pessoal e vexatório feito ao jornalista da RTC no Facebook seguiu um padrão reproduzido em outras paragens por políticos populistas que precisam desacreditar os medias tradicionais para impor a sua verdade alternativa.

Espera-se ainda mais pressão para sustentar a narrativa política ideológica antiliberal que tem mantido vivas as fracturas no sistema político cabo-verdiano. Um exemplo é o chamado campo de concentração do Tarrafal, uma designação para campo de trabalho e antes a colónia penal do Tarrafal que só vai aparecer na resolução do conselho de ministros nº 33/2006 de 14 de Agosto de 2006 do governo do PAICV. Na narrativa segundo a qual Cabo Verde é independente por causa da “luta de libertação” cria-se um campo de concentração para prisioneiros de guerra e fala-se em campo de morte lenta, talvez para lembrar os campos de extermínio nazi. A impor a sua verdade faz-se por ignorar que se há algo de comum na história da prisão do Tarrafal é ter recebido presos políticos portugueses (1936), presos políticos originários das colónias a partir de 1961 e presos políticos cabo-verdianos (1974) considerados inimigos do regime que o PAIGC viria a instalar em Cabo Verde depois da independência.

Na linha de inculcar essa narrativa em todas as oportunidades, o Presidente da República, comentando a alegria e a união de todos os cabo-verdianos à volta da selecção nacional na Copa do Mundo, invocou o 5 de Julho de 1975 como o dia em que o mesmo teria acontecido. Com o selo oficial do PR quer-se negar a verdade que nos dias anteriores até o 5 de Julho dezenas de cabo-verdianos foram deportados para Portugal, outros foram transferidos para a prisão de Caxias e outros ainda saíram do país para não mais voltar ou só voltar depois do 13 de Janeiro de 1991.

Não é aceitável que se queira interpor poder institucional do Estado no caminho para se conhecer a verdade sobre o que realmente foi a prisão do Tarrafal, o que foram as tragédias pessoais e familiares à volta do 5 de Julho de 1975 e também a ditadura que a independência gerou. Não é o que se espera de quem fez o juramento de cumprir a Constituição liberal que preza a procura da verdade com base no pluralismo de expressão. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1283 de 01 de Julho de 2026.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Apetência para concentração do poder

 A nova legislatura da II República iniciou-se na quinta-feira passada, dia 18 de Junho, com a sessão constitutiva da nova Assembleia Nacional. Como habitual, começou com os equívocos de sempre: a designação da XI legislatura que devia ser a VIII da II República como é prática em outros países que já tiveram várias constituições ao longo da sua história. Por razões de fidelidade a narrativas politico-ideológicas, para completar onze legislatura, juntam-se os anos da LOPE e anteriores à constituição de 1980 como a primeira legislatura (1975-1980) e outras duas (1981-1985) e (1986-1990) da I República que caiu com o 13 de Janeiro de 1991.

A esses equívocos somaram-se, talvez de negociações pouco claras, os que resultaram no caso quase caricato de votos em excesso nas eleições dos representantes do PAICV na mesa da AN comparativamente aos recebidos pelos representantes do MpD. As mesmas negociações que terão deixado de fora a apreciação das situações de inelegibilidade por violação da alínea a) do artigo 404º do Código Eleitoral. Isso sem falar do lugar do terceiro secretário da mesa da AN criado em 2001, que teria sentido se fosse a representação de um terceiro grupo parlamentar. A nomeação de um deputado do MpD, que não o líder ou um membro da direcção do grupo parlamentar, para um lugar na comissão permanente da AN também foi inédita.

Os equívocos seguiram-se no dia 19, numa pressa pouco usual, com o decreto presidencial de nomeação do governo a meio da manhã e tomada de posse do primeiro-ministro e dos membros do governo logo às cinco horas da tarde. No seu discurso na cerimónia de posse, o presidente da república retomou a designação de XI Governo da República para o novo governo que iria substituir o VIII Governo Constitucional da II República. Fez algo similar quando, em 2001, enquanto primeiro-ministro, apresentou o seu governo como o Governo da VI legislatura, sendo o governo cessante o III Governo Constitucional.

A relutância em usar a designação de governo constitucional, além de mostrar o grau de adesão à narrativa que considera igualmente legítimos os governos do regime de partido único e os governos democráticos da II República, deixa transparecer o desconforto com o princípio que a democracia cabo-verdiana é liberal e constitucional. Diferentemente do que acontece nas ditaduras de partido único, nas democracias são afirmados como inalienáveis e invioláveis os direitos humanos e estabelece-se que o poder só é legítimo se exercido nos termos da Constituição e da Lei. Enfaticamente diz-se que os governos são constitucionais, entre outras razões, porque, sendo detentor do poder executivo, é fundamental para a liberdade e segurança de todos que esse poder seja clara e explicitamente limitado pela Constituição e pelas leis.

Um governo ao afirmar-se constitucional está a sinalizar esse compromisso que não há democracia contra a Constituição ou fora da Constituição. Isso é importante porque há quem considere que conseguindo maioria nas urnas o cumprimento das leis passa a depender da conveniência do momento, incumprimentos passados podem ser ignorados e o poder judicial deve conter-se perante o sentimento maioritário do eleitorado expresso no voto. Muito do populismo à moda de Donald Trump vai nesse sentido e é preocupante como essa atitude em relação ao poder vem sendo avidamente adoptada em outras paragens. E Cabo Verde não é excepção.

Por isso é que é de prestar uma maior atenção às sucessivas tentativas, muitas vezes vindas de titulares dos mais altos cargos da república e também dos partidos políticos, em não cumprir as regras e os procedimentos constitucionais. Quando sobram equívocos e negociações são feitas para contornar a lei e percebe-se que em termos ideológicos a fidelidade está algures com ideologias em confronto com os princípios e valores da república - não se pode baixar a guarda. A percepção de que o novo governo a perfilar é diferente do que as alternâncias na governação do país têm produzido nestas três décadas e meia da democracia deve levar a um escrutínio mais apertado da via que vai seguir na implantação das suas políticas, na sua relação com as outras instituições e com a sociedade.

Chamou a atenção o facto de se ter conseguido guardar sigilo da composição do governo até o último instante e do elenco governativo ter sido uma completa surpresa para a generalidade das pessoas e dos comentadores que viram as suas especulações praticamente desfeitas. Por de trás disso sente-se coesão à volta do chefe, uma realidade que ao nível institucional é confirmada com a eleição por unanimidade da líder parlamentar do PAICV. Dessa forma passa-se a mensagem que a ligação governo e sua maioria, embora à justa, é sólida, o que contrasta com a imagem de alguma desunião e desorientamento nas fileiras do MpD.

Por outro lado, o facto que uma boa parte da nova equipa governativa não ter percurso notório no PAICV e de muitos com experiência e protagonismo nas instituições e no partido terem sido preteridos poderá estar a reforçar a imagem do líder como do “outsider” que capturou um partido tradicional. O que daí virá, vai depender tanto do papel que a Oposição, vencendo as fragilidades internas, será capaz de oferecer como também da resistência institucional a quaisquer incumprimentos do princípio de separação dos poderes. O facto do primeiro-ministro acumular o cargo de ministro das finanças, um cargo normalmente visto como um centro gravitacional de poder, eventualmente estará a sinalizar que o chefe não quer rivais no governo.

A apetência para a centralização do poder provavelmente não ficará pelo governo. As ambiguidades deliberadamente criadas pelo espectáculo de se ter um primeiro-ministro indigitado a servir como presidente da câmara da capital do país não deixará de levantar a questão do grau de envolvimento que poderá continuar a ter com a autarquia. Aliás, os cuidados com o processo da saída da câmara da Praia, fintando a renúncia, indo e vindo no quadro de substituição no cargo e levando para o governo cinco antigos colaboradores na administração municipal, sugere que algo novo poderá estar a ser contemplado.

O momento revela-se excepcional para uma concentração de poder talvez sem paralelo na II República mesmo com a maioria mais pequena da história da democracia cabo-verdiana. O presidente da república a preparar-se para um segundo mandato e dependente do eleitorado que o PAICV lhe pode proporcionar não está na melhor posição para contrabalançar o poder do governo. O MpD, depois da renúncia do líder e na ressaca da saída de poder, dificilmente será capaz de fazer frente ao governo e à sua maioria na ofensiva para renovar os órgãos externos à Assembleia Nacional e os outros órgãos constitucionais como o Tribunal Constitucional, o Tribunal de Contas e o Procurador- Geral da República. Aliás, a corrida aos lugares irá facilitar o processo e certamente que não haverá o tipo de bloqueio que o PAICV protagonizou nos últimos tempos.

Apesar das promessas grandiosas feitas pelo governo, onde se destacam a gratuitidade de vários serviços, os tempos não serão fáceis. Não estão a ser no resto do mundo e os efeitos da contração da produção, do investimento e do comércio que se está a verificar não deixará de afectar o país. É preciso evitar que a corrida para o controlo do poder não sacrifique as chances de desenvolvimento de Cabo Verde. Aconteceu antes e espera-se que não venha acontecer. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1282 de 24 de Junho de 2026.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O sucesso dos Tubarões Azuis, um exemplo para Cabo Verde

 O fim da legislatura iniciada a 19 de Maio de 2021 termina amanhã dia 18 de Junho com a constituição da nova Assembleia Nacional que saiu das ultimas eleições legislativas. A data de início da nova legislatura foi definida de acordo com as normas constitucionais. A clareza dos procedimentos estabelecidos assegura que a transferência de poder é feita de forma ordeira e pacífica. Isso, porém, não impediu que ruídos diversos, pondo em causa a legitimidade de um governo com plenos poderes até ao fim do mandato, não tentassem manter um ambiente polarizado de campanha, num desafio permanente às instituições e aos procedimentos democráticos.

O insólito aconteceu na sexta-feira passada, 12 de Junho, numa reunião do Conselho Nacional do PAICV da qual constavam dois pontos: 1- Ratificação da designação do candidato a primeiro-ministro; 2- Apresentação e aprovação das linhas gerais do Programa de Governo. Nessa reunião, o partido pôs-se na posição de ratificar a decisão do presidente da república de 3 de Junho de indigitar Francisco Carvalho como primeiro- ministro. Uma decisão certamente com origem na proposta feita pelo PAICV quando foi ouvido pelo PR e que era obvia, considerando que ele é o líder do partido e foi apresentado ao eleitorado como candidato a primeiro-ministro. Com isso presente, a ratificação da escolha do PR pelo Conselho Nacional do partido pode estar a sinalizar outra coisa.

De facto, dá a impressão de se estar a resgatar uma cultura e prática política que põe o partido a tutelar e a validar os actos dos órgãos de soberania. O segundo ponto da agenda do Conselho Nacional parece ir nessa direcção ao reivindicar para si a “aprovação das linhas gerais do Programa de Governo”. A Constituição da República é clara a determinar que o programa de governo é elaborado e aprovado pelo Conselho de Ministros e depois apresentado à Assembleia Nacional. Após a sua discussão e posterior aprovação de uma moção de confiança, o Governo passa a ter plenos poderes para governar. Em todo este processo os protagonistas são órgãos de soberania (PR, AN, Governo) e seus titulares (deputados, ministros, primeiro-ministro, e não órgãos do partido, como seria de esperar num regime de Partido/Estado.

Nestes dias, a confusão institucional de papéis não ficou por aí. No mesmo, dia 12 Junho, para surpresa de todos o primeiro-ministro indigitado reemergiu no papel de presidente da Câmara Municipal da Praia, num acto público de cooperação internacional em matéria de polícia municipal, e a fazer pronunciamentos sobre a necessidade de reforçar os recursos humanos e materiais da protecção civil e dos bombeiros da capital. Nesta segunda-feira, outra vez como PM indigitado, mas agora acompanhado do secretário-geral e da presidente do conselho nacional do PAICV, teve um encontro com o actual primeiro-ministro para “iniciar o processo de passagem de pastas”.

O problema é que ainda não são conhecidos os ministros e a nomeação do primeiro-ministro e dos ministros pelo PR está marcada para o dia 19 do corrente mês, um dia após a sessão constitutiva do novo parlamento. A ter lugar a passagem de pastas ministeriais seria para quem? A sua indigitação resultou de uma comunicação da presidência da república e não de um decreto presidencial e os acompanhantes, na qualidade de dirigentes partidários, não as pode receber. Situações caricatas como essas surgem quando se insiste em não cumprir as regras e os procedimentos estabelecidos. O resultado é a pressa em indigitar e a falta de paciência em esperar, que se cumpram os prazos e que a nova legislatura se inicie no tempo certo e o governo entre em gestão, acompanhadas de acusações “éticas” que, em geral, mais não são que continuar a fazer campanha eleitoral contra quem já perdeu as eleições.

Protagonismos pessoais, reposicionamentos políticos e investidas contra instituições e seus titulares poderão convergir para não tão cedo deixar as coisas voltar à normalidade e evitar sobressaltos na sociedade e no Estado. Na Câmara Municipal da Praia a recusa do presidente e da vereadora em cumprir com a alínea do artigo 404 pode levar a que os respectivos mandatos como deputados sejam impugnados por inelegibilidade, alterando a solução de substituição existente. Na assembleia constitutiva de 18 de Junho constrangimentos poderão surgir se a comissão de verificação dos mandatos confirmar inelegibilidades e/ou qualquer deputado avançar com um pedido de impugnação.

Se o padrão de comportamento político, que claramente se pode identificar de desafio às normas e procedimentos, se manter e se alastrar a diferentes áreas, mais incertezas e crispação políticas poderão vir a instalar-se. Em particular, se não houver escrutínio da sociedade e dos médias e se os partidos políticos se retraírem no cumprimento dos seus deveres de zelar pela integridade do sistema democrático e do Estado de Direito. Também ao nível individual e do cidadão comum terá que existir uma reação que limite os efeitos das redes sociais e dos seus algoritmos que muitas vezes lançam as pessoas em ondas sucessivas de indignação e as compartimentaliza em câmaras de eco. É uma tendência actual agravada pelo uso generalizado do telemóvel que urge combater e que contribui para o crescimento de ressentimentos, para diminuir a importância dos factos na busca da verdade e alimenta teorias de conspiração.

O cinismo ou mesmo o niilismo que pode surgir dai é o pior inimigo de qualquer progresso, do desenvolvimento de qualquer espírito de cooperação e interajuda e de se trabalhar para manter um ambiente ordeiro onde regras são cumpridas, reconhece-se e compensa-se o mérito e há ganhos gerais da competição de esforços e iniciativas. Quem se deixa apanhar por tais sentimentos não fica mais alegre, nem mais esperançoso no futuro e mais confiante nas relações interpessoais. Nota-se o contrário do que se tem presenciado através da demonstração de satisfação individual e colectiva que tem sido a presença de Cabo Verde na Copa do Mundo, atingindo os píncaros com o empate do jogo frente à Espanha. De facto, há maior vantagem e felicidade em fazer as coisas conjuntamente, em ter objectivos que galvanizem todos e em criar oportunidade para demonstrar, perante outros, capacidade comparativamente igual ou superior nos mais diferentes ramos de actividade.

É nisso que o país devia dirigir a sua atenção em vez de se deixar seduzir por promessas de soluções mirabolantes que não pressupõem respeito pelas regras e são protagonizadas por líderes personalistas e populistas. Em vez disso, devia-se ver que há sucesso quando, como nos Tubarões Azuis, há espírito de equipa, há partilha de objectivos, o talento pessoal pode-se exprimir e multiplica o esforço do grupo. Também a liderança, o treinador Bubista, age com serenidade, sem deixar-se seduzir por sucessos anteriores, e com pragmatismo e clareza de propósitos , mantendo todos engajados até ao fim do desafio.

Para melhor celebrar o feito extraordinário dos Tubarões Azuis no dia 15 de Junho é o que se devia procurar fazer em todos os sectores da vida do país e pôr um efectivo STOP a uma cultura política que se sustenta do confronto permanente com as regras do jogo democrático e com as instituições. Como os Tubarões Azuis, ganha-se respeitando as regras e movendo-se para atingir os objectivos com tácticas que não põem em causa a integridade do jogo e que, pelo contrário, fazem do certame um espectáculo para relembrar hoje e sempre. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1281 de 17 de Junho de 2026.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cabo Verde precisa de um partido de reformas

 A Direcção Nacional do MpD na reunião realizada sábado passado designou Eurico Monteiro como presidente interino para, segundo um comunicado da DN, assegurar a unidade do partido na actual fase em se prepara para renovar a liderança numa convenção em Setembro próximo. Essa foi a via encontrada para responder à renúncia do presidente Ulisses Correia e Silva, anunciada ao público na noite eleitoral em reacção à derrota verificada, que logo abriu caminho para uma corrida para a sucessão com o aparecimento, até o momento, de quatro candidatos. Outros desafios colocam-se ao partido, designadamente de, a curto prazo, se organizar como oposição no parlamento e na sociedade depois de 10 anos de poder maioritário, de posicionar-se em menos de seis meses sobre as eleições presidenciais e também de, a médio prazo, preparar-se para as autárquicas de 2028.

Nas eleições de 17 de Maio, o país estava perante uma encruzilhada: ou prosseguia com as políticas numa perspectiva, segundo alguns observadores, do mais do mesmo que, não obstante as críticas, vinha dinamizando a economia e diminuindo o desemprego; ou enveredava por forte redistribuição de rendimentos no quadro de um “Estado de amparo” como proposto pelo PAICV e apoiado com nuances por outras forças políticas. O partido no poder perdeu, ao não saber contrariar eficazmente a narrativa criada de país em estado caótico, de país de crescimento fictício, ou só favorecendo a alguns, e de causar desesperança nos jovens, forçados a emigrar. A vitória do maior partido da oposição cavalgou as expectativas altas criadas juntos das pessoas pelas promessas de gratuitidade numa série de serviços públicos (saúde, educação, transportes).

O que ficou omisso no debate eleitoral foi o facto de o crescimento económico para os próximos anos situar-se à volta do potencial de 4,9% do PIB, como parecem indicar várias previsões até 2029 divulgadas por instituições nacionais (BCV) e internacionais (FMI, Banco Mundial, agências de rating). Um crescimento abaixo do que consensualmente se considera necessário para o país dar um salto no seu desenvolvimento. Da mesma forma não se considerou a situação de incertezas de natureza geopolítica e geoeconómica que o mundo vive actualmente e possíveis impactos negativos que poderá ainda ter ao afectar fluxos externos no turismo e no investimento directo estrangeiro.

Em linha com essas omissões compreende-se que não se tenha referido às reformas que o Cabo Verde precisa fazer para aumentar a sua produtividade e estar em posição de pagar salários mais altos, conseguir maiores receitas públicas e tornar o país ainda mais competitivo. Por outro lado, as promessas de campanha ao elevar ainda mais as expectativas das pessoas, sem consideração com a realidade, dificulta ainda mais o debate sobre que políticas, que mecanismos, que abordagens poderão ser mais úteis para dinamizar a estrutura económica do país. E é importante lembrar que se a economia não crescer o suficiente a redistribuição prometida irá funcionar na base de recursos cada vez mais escassos e em vez de trazer mais autonomia às pessoas vai abrir caminho para o clientelismo e promover maior dependência do Estado.

Em procurando recompor da derrota e preparar-se não só para ser uma oposição efectiva como também alternativa, a via obvia que se oferece ao MpD é de se apresentar como um partido das reformas que Cabo Verde precisa para prosperar em vez de ficar preso na miragem de políticas redistributivas. Aliás, essa opção estaria mais em linha com história do movimento popular que emergiu nos tempos históricos de 1989/1990 de transição da economia estatizada para uma economia de mercado. Do mesmo modo faria ressonância com o legado de reformas que foi a governação nos anos noventa que abriram o país para a modernidade e elevou o seu potencial, permitindo-lhe crescer a taxas das mais elevadas de sempre.

O debate que é de esperar no partido, com as quatro candidaturas a posicionarem-se para a liderança, deveria ser dirigido precisamente para o MpD se reencontrar como o partido de reformas. Reformas que não têm que se resumir a seguir a agenda das organizações internacionais, atrás dos “milhões” disponibilizados, uma postura que mesmo essas entidades reconhecem, num Memorando do Banco Mundial de 14 de Julho de 2023, não se traduzia em suficientes ganhos de produtividade para o país. Ter uma visão e estratégia própria na relação com os parceiros e não se “limitar a ser bom aluno” é fundamental para manter o foco nas reformas que o país realmente precisa para ultrapassar as suas dificuldades específicas.

Encandeado pelos “milhões” também é de evitar proclamações do tipo de se estar a construir “o maior Estado social de sempre” para depois ser-se confrontado com o “Estado de amparo”, apresentado como sendo superior no apoio às populações. Num país em que há um historial de procurar enredar as pessoas nas malhas da dependência do Estado para controlo e benefício político é de grande importância que não se sacrifique o princípio de autonomia das pessoas e a existência de uma sociedade civil autónoma no processo de apoio às populações vulneráveis e na prestação de serviços públicos. Deixando espaço para manipulação das pessoas sempre vai aparecer quem o faça de forma mais efectiva. E nunca irão desaparecer as suspeitas de condicionamento do voto, nem se conseguirá desenvolver uma cultura de trabalho com base no mérito e promover a iniciativa individual que aceite riscos, quando se sabe que o Estado faz favores e facilita o acesso a recursos e a oportunidades.

Uma realidade revelada pela histórica económica de diferentes países é que o crescimento económico e o desenvolvimento não são lineares e que o progresso não é garantido. Em qualquer fase no trajecto de desenvolvimento das nações pode-se deparar com bloqueios, com armadilhas ou círculos viciosos que não deixam os países avançar ou que os fazem cair na estagnação. É famosa a armadilha do desenvolvimento médio que assombra vários países como também é conhecida a estagnação do Japão nos anos noventa, na época a segunda maior economia do mundo, devido a uma liquidity trap.

Também não é facto adquirido que qualquer país pode chegar aos patamares mais altos de desenvolvimento, ser hoje médio e daqui a poucos anos atingir o nível alto. Por isso é que nas sociedades deve sempre existir um nível de debate interno em que os partidos têm a função fundamental de manter as opções abertas e assegurar a procura competitiva de soluções para os obstáculos ao desenvolvimento que eventualmente possam surgir. Claramente que a democracia é neste sentido o regime político ideal para corrigir erros de política no contraditório entre o governo e a oposição, mudar de rumo e arrepiar caminho através das eleições. Para isso, porém, é fundamental que os partidos, ao mesmo tempo que preservam a sua identidade, legado e ideologia, procurem estar em sintonia com a sociedade para que, num debate permanente das questões da governação, sejam alternativas de futuro para o país.

Em particular, todos os países devem ter um partido com coragem de propor e executar as reformas que se mostrem necessárias numa determinada fase de crescimento. Não se pode chegar a ponto de dizer que não há alternativa entre os partidos. Quando assim é, abre-se espaço para os extremos como pode ter-se verificado nas últimas eleições. Por isso, é importante para o país que o MpD, a querer renovar-se, se reveja como o partido das reformas que teve coragem de propor e de fazer em tempos idos. Todo o país tem a ganhar do confronto de visões e de políticas que daí poderá resultar.

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1280 de 10 de Junho de 2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Falta de pluralismo no debate de ideias sobre identidade histórica de Cabo Verde

  Por iniciativa do presidente da república realizou-se na semana passada, nos dias 28, 29 e 30 de Maio um Encontro Internacional sobre a Crioulidade que reuniu personalidades políticas, académicos e artistas nacionais e de outras nacionalidades vindas de vários países da bacia do Atlântico. Segundo o PR, a ideia era reflectir sobre aquilo que a experiência história dos povos pode oferecer ao futuro. Pelas intervenções feitas, porém, fica-se com a impressão que faltou a pluralidade de experiências desejada, em particular da parte cabo-verdiana. Os painelistas convidados na generalidade alinham pela única corrente de pensamento sobre a história e a identidade cabo-verdiana que é aparentemente aceite na universidade pública. Não estranha que em sintonia, nas suas intervenções, o PR colocando-se mais uma vez no papel de activista, tenha reafirmado o recente encontro da Crioulidade na Praia como projecto da humanidade e renovado o apelo à oficialização da língua cabo-verdiana.

O evento pode ter sido organizado para partilhar experiências da crioulidade, mas, de facto, foi oportunidade para mais um exercício no quadro do processo em curso de reafricanização dos espíritos. Não faltaram citações de Amílcar Cabral no discurso do PR e de outros intervenientes. De um professor da UniCV ouviu-se que “só faz sentido falar de governança, diplomacia e cooperação crioula como parte de uma estratégia para reforçar a resistência pan-africana contra a dominação eurocêntrica do sistema do mundo actual. Sem essa âncora política, a crioulidade transforma-se num folclore inofensivo ao poder”. Ou seja, para se falar da experiência de Cabo Verde deve-se recusar o apelo dos Claridosos de “fincar o pé na terra” e falar a partir de fora, a partir das reflexões sobre a luta de libertação na Guiné ou então subordinando a análise da realidade do país às necessidades do pan-africanismo.

“Fincar o pé na terra” poderia mostrar logo as diferenças básicas entre a realidade cabo-verdiana e as dos países ou das ilhas convidados para o encontro: território deserto de pessoas quando “achado” enquanto a generalidade das ilhas das caraíbas era habitada; arquipélago sujeito a secas periódicas ao contrário de ilhas com chuvas regulares e intensas; agricultura praticamente limitada a cultivos de sobrevivência versus economias de plantação para produção de produtos ricos de exportação (açúcar, tabaco, algodão) para Europa, ilhas isoladas e muitas vezes deixadas quase abandonadas, ao contrário de ilhas e países com comércio crescente com várias partes do mundo.

Outrossim, a perda de população para os territórios mais promissores (Brasil), as mortandades causadas pelas secas periódicas e o isolamento que limitava o fluxo humano para ilhas e o consequente empobrecimento geral teriam contribuído em Cabo Verde para uma vida muitas vezes no fio da navalha ou nos limites da sobrevivência. Menor rigidez na estratificação social, menos dificuldade em aceder a propriedade e constrangimentos para instalação de migrantes terão resultado num nível de mestiçagem sem paralelo nos territórios ricos das plantações em que a riqueza produzida suportava gente rica e branca na casa grande e escravos negros na sanzala. Não admira que nas circunstâncias de Cabo Verde, diferentemente do que se passa em Guadalupe, Martinica, Jamaica, Maurícias em que os proprietários de terras são de origem europeia colonial, se depara com a realidade de não haver correlação directa entre ter propriedade e a cor da pele.

O enorme alcance desse processo de cabo-verdianização vê-se pelo uso do crioulo por todas as classes sociais e em todas ilhas, cada uma com a sua variedade. Diz do nível de abandono a que as ilhas foram votadas e da pobreza das suas gentes o facto de que, em Cabo Verde, o uso do crioulo se ter generalizado a um nível sem paralelo em outras realidades “atlânticas”. E é assim porque quando há riqueza, o Estado está presente, impõe a sua língua, as classes mais abastadas e as da classe média fazem questão de a usar. Toda essa excepcionalidade que veio de se viver no limite terá contribuído para a emergência da consciência da nação, a ideia de que mesmo sob a bandeira portuguesa toda a gente nas ilhas sentia-se cabo-verdiano.

Chega-se ao 5 de Julho de 1975 com essa consciência de nação, um bem precioso que outros países recém-independentes, criados como foram artificialmente na conferência de Berlim que dividiu a África, gostariam de ter para enfrentar os desafios do desenvolvimento com um outro foco e motivação. Para alguns deles falou-se de “forjar nações na luta” para conseguir o grau de unidade que facilita a implementação de políticas. Paradoxalmente, em Cabo Verde que já era nação antes da independência procedeu-se a um processo chamado de reafricanização dos espíritos que tende a abrir feridas e a desconstruir a nação com o falso dilema Europa ou África quando todos há muito que sentiam confortáveis como cabo-verdiano.

Em consequência, toda a história foi revista para que o passado aceitável fosse só aquele que traçava um caminho que culminasse na luta do PAIGC e na independência nacional. Os pontos altos deviam ser as revoltas porque constituiriam um prelúdio para luta que viria depois. Também importante era invocar as memórias da fome para fazer a população eternamente grata aos libertadores e mantê-la enredada nas malhas da dependência do Estado. No mesmo sentido, reviver um passado de escravatura foi considerada fundamental para inculcar um sentimento de vítima que precisa de ser resgatado.

Como disse um ex-Ministro de Educação “a obra de António Carreira (Cabo Verde: formação e extinção de uma sociedade escravocrata (1460-1878)) é aquela que mais fez para a produção e sistematização de elementos teóricos para uma possível unidade entre Guiné e Cabo Verde”. Atingir esse objectivo do PAIGC de unidade foi a razão por que o livro se tornou essencial nas escolas e nos círculos de estudos sobre Cabo Verde. Quanto aos intelectuais, escritores e artistas que realmente estiveram presentes na emergência da consciência da nação foram considerados “lixo da nossa história” e ameaçados de serem metidos num saco e lançados ao mar.

Há, pois, uma razão para a falta de pluralismo no debate de ideias sobre a identidade histórica de Cabo Verde que empobrece a sua experiência histórica e dificulta aos outros estudiosos elementos para uma real compreensão do seu percurso ao longo dos séculos. Viu-se isso no último encontro da Praia e é notório em eventos institucionais similares, nas actividades universitárias e nos debates na comunicação social pública. O Estado, as universidades e a comunicação social não deviam veicular ideologias e muito menos ideologia única. Mas como não é assim, por isso é que se depara com activismo de titulares de órgãos de soberania, de académicos e de jornalistas, sem a devida consideração pela unidade da nação que devem preservar, a pluralidade de expressão que deve existir nas universidades e o confronto de ideias das diversas correntes de opinião que se requer dos médias.

Depois de toda a crise gerada pelo manual da língua cabo-verdiana que foi retirada do sistema de ensino na sequência do parecer do Ministério Público a considerar que a adopção de um regime de escrita para o crioulo devia ser aprovada pela Assembleia Nacional, a questão da oficialização do crioulo regressou à baila pelo PR no encontro internacional da crioulidade. Talvez estava-se a deixar um tempo para não se ter que enfrentar o facto de que também o decreto-lei que aprovou o ALUPEC poderá não estar conforme. Sabe-se que o tema é fracturante, mas mesmo assim pressiona-se, marcam-se datas para oficializar, sabendo que não são factíveis considerando o tempo exigido para o cumprimento dos procedimentos necessários para a revisão constitucional.

É como se não se desse a devida atenção à importância de Cabo Verde ser realmente uma nação e que a manutenção da sua unidade é uma vantagem a preservar e a acarinhar. Em simultâneo e aparente contradição dá-se a impressão de valorizar a crioulidade apresentando-a como projecto de futuro para a humanidade. Mas isso parece que nem o professor da UniCV acredita que o “mundo está a tornar-se crioulo”. Sempre atento às manobras dos poderes coloniais avisa que poderão estar a promover uma crioulização assimétrica.

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279 de 03 de Junho de 2026.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A transferência ordeira e pacífica do poder é fundamental nas democracias

 Dois dos princípios mais importantes da democracia são o princípio da alternância no governo por via de eleições livres realizadas num ambiente de pluralismo e o princípio da transferência pacífica do poder para o novo governo saído das eleições. O seguimento estrito desses dois princípios é fundamental para a consolidação institucional da democracia, para a legitimidade de qualquer governo saído das eleições e para a renovação da confiança dos cidadãos de que o exercício do poder é feito no quadro constitucional e legal existente. Na base desses princípios dá-se por ilegítima qualquer tentativa de tomada de poder pela força ou por fraude e condena-se a tentação de passar a imagem que o partido vencido está agarrado ao poder e deve ser escorraçado.

Um momento crucial no processo democrático é o da proclamação do vencedor nas eleições e da aceitação dos resultados eleitorais pelos vencidos. Um outro momento de extrema importância é a assunção do poder pelo vencedor na nova configuração das forças políticas saída das eleições. Nestes dois aspectos Cabo Verde nos 35 anos de eleições democráticas tem-se distinguido e a apreciação positiva da sua democracia em grande medida vem da sua capacidade de realizar pleitos eleitorais livres e de não haver sobressaltos de maior grandeza nas passagens de poder de um governo para outro. Isso, porém, não exclui que não se note certo tipo de manifestações complicadas em momentos de alternância governativa. Porventura, serão resquícios de uma cultura política que pela sua natureza privilegia estratégias de captura do poder que se completam na encenação de saídas, forçadas e humilhantes, dos adversários do poder.

Depois das eleições que se saldaram na vitória do PAICV, rapidamente foram dadas continuidade às múltiplas denúncias, com grande cobertura nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, agora com um outro tema. Já não se trata de pôr em causa a neutralidade das instituições estatais durante a campanha eleitoral, mas de questionar a legitimidade do exercício do poder pelo governo até ao fim do seu mandato. Mandato esse que, como a Constituição estabelece, apenas termina com o início da nova legislatura, a acontecer vinte dias depois da publicação pela CNE dos resultados definitivos das eleições. Curioso que quem ostensivamente nega cumprir normas eleitorais que ferem de inelegibilidade as suas candidaturas arroga-se agora o poder de limitar os poderes do governo, passando por cima da Constituição.

Parece ser a táctica política escolhida não cumprir as leis e exigir que os outros cumpram a interpretação conveniente que fazem das disposições legais. A provocação funciona quando, na falta de reacção de outros actores políticos e dos poderes de fiscalização da legalidade, renova-se à vista de todos o sentimento de impunidade. Nesse sentido, não ajuda o post no Facebook do presidente da república na segunda-feira. Depois de afirmar categoricamente que “o governo não é de gestão e tem a plenitude dos seus poderes constitucionais”, desdisse ao acrescentar que por “razões éticas, deve limitar-se a actos correntes”, ou seja, ser governo de gestão.

Já na semana passada o PR não se coibiu de presidir às cerimónias no Dia do município da Praia e de, com a sua presença emprestar legitimidade ao processo de substituição do presidente da câmara municipal que não resultou do cumprimento do código eleitoral. A alínea a) do artigo 404 estabelece que presidentes das CMs e vereadores devem renunciar aos cargos para poderem candidatar-se a deputado pelo seu círculo eleitoral, o que não aconteceu. A pergunta que fica é se o PR está a assumir na plenitude as suas funções de zelar pelo regular funcionamento das instituições ou se está a “autolimitar-se, como “postou” ter feito, em outras ocasiões, enquanto primeiro-ministro, nos “30 dias antes das eleições”, e as razões para isso.

O problema é que, quando se mudam as regras do jogo, não interessando se por razões éticas ou outras, se não se está a abrir caminho para outras vias na conquista do poder que desafiam os procedimentos democráticos. Vias essas que podem deixar espaço para outras possibilidades não tão pacíficas e não tão tolerantes para os adversários vencidos e não confortantes para os cidadãos que querem continuar a escolher em liberdade e no pluralismo os seus governantes. Por isso é que, apesar dos momentos eleitorais da democracia cabo-verdiana ao longo dos 35 anos se terem globalmente revestido de sucesso, não se deve ignorar que actos, provocações e entorses nos procedimentos em várias eleições sugeriram a presença de outra cultura política com pendor mais para captura do poder, sem olhar a meios, do que pelo uso da persuasão para conquistar eleitores.

Um exemplo disso é o que o PR se referiu no seu post ao ano de 2001 em que se verificou a primeira alternância de governo na democracia, depois de, como agora, o PAICV ganhar as eleições legislativas após 10 anos de governo do MpD. Como implicitamente diz, não foram seguidos os procedimentos constitucionais. Se a orientação escolhida fosse de os seguir a demissão do então primeiro-ministro Gualberto do Rosário, no dia seguinte após as eleições legislativas de 14 de Janeiro de 2001, teria sido gerida de outra forma. O resultado é que enquanto primeiro-ministro tomou posse no dia 1 de Fevereiro desse ano, antes da constituição da nova Assembleia Nacional que viria a verificar-se no dia 13 de Fevereiro.

Ora, num sistema parlamentar o governo nomeado deve reflectir a configuração das forças políticas no parlamento sob pena de quando apresentar o seu programa de governo não ter maioria para passar a moção de confiança e ser automaticamente demitido. A nomeação, ao ter lugar 13 dias antes, contornou o prazo constitucional de 15 dias para apresentar ao parlamento o programa do governo sob pena de demissão imediata. Também para a escolha da data certamente não se ignorou que acontecia em plena campanha para as eleições presidenciais e como a iria afectar. Nem parece que então o primeiro-ministro se “autolimitou-se”, por razões éticas, nas mudanças cirúrgicas que de imediato fez, designadamente nos sectores sensíveis da polícia, da televisão, mesmo sendo o seu governo um governo de gestão. Tão pouco se coibiu de, segundo a Lusa (10.02.2001), participar nos comícios de Assomada e da Praia da candidatura de Pedro Pires.

Precisamente para se evitar que situações do género que mancham a democracia cabo-verdiana levando mesmo à prisão por fraude eleitoral é que se deve procurar seguir à risca os procedimentos democráticos e não os interpretar por conveniência própria ou reclamando-se portador de uma ética superior. As eleições não devem ser esvaziadas por denúncias, provocações e desafios às normas em detrimento do debate necessário sobre o presente e o futuro para permitir ao cidadão fazer a sua escolha de governo e dos governantes. O país, mesmo em momentos eleitorais e até ao término da legislatura, deve ter um governo com plenos poderes.

Como se pode constatar do rito de transferência de poderes nas democracias consolidadas, tudo é feito para limitar no máximo qualquer vazio de poder. Recentemente na Alemanha (Março de 2025) uma coligação partidária que tinha perdido as eleições, mas ainda não tinha terminado o mandato, levou a cabo uma revisão constitucional do “travão da dívida”, crucial para o país. Em Cabo Verde, realizadas as eleições há que focar na nova legislatura que vem aí e deixar o ambiente de campanha. Afinal, já se sabe quem foi o vencedor. O que não se pode fazer é, a pretexto de controlar gastos ou actos do governo, tentar fazer dos funcionários públicos vigilantes de práticas da administração pública como os comités de partido de outrora.

Cabo Verde é uma democracia e um Estado de Direito e quem o governar deve saber que há limites constitucionais e legais no exercício do poder que em nenhuma circunstância devem ser preteridos. A liberdade, a paz e justiça dependem disso. O mesmo acontece quanto à prosperidade que depende de uma sociedade ordeira, solidária e confiante no futuro.

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O caminho complicado aberto com as eleições de 17 de Maio

 Já com as eleições legislativas de 17 de Maio realizadas e quase totalidade (99,1%) das mesas apuradas dá-se como certa uma maioria absoluta “à justa” de 37 deputados do PAICV de entre os 72 que compõem a Assembleia Nacional. O MpD ficou pelos 33 deputados e a UCID viu-se reduzida a 2 deputados, deixando para trás o sonho de constituir um grupo parlamentar e de quebrar o bipartidarismo e a sucessão de governos de maioria absoluta que têm caracterizado a democracia cabo-verdiana. A abstenção subiu para cerca de 53.5%, servindo de argumento para os habituais descontentes da democracia, sem qualquer estudo prévio sobre as suas reais causas, reafirmar com mais vigor a convicção de qua a democracia representativa não passa de uma democracia formal e de fachada.

O facto de todo o processo eleitoral ter-se verificado na ordem e tranquilidade, culminando na aceitação dos resultados obtidos por todos os intervenientes e na disposição manifestada de uma transferência regular de poder com a nova legislatura, não impede que se continue a pôr em causa a qualidade da democracia pelas razões nem sempre as mais importantes. Não se valoriza suficientemente o que já foi conseguido, mas, em sentido contrário, tudo parece servir para diminuir o sistema democrático.

Um exemplo é o zelo demonstrado nas sucessivas queixas à CNE visando a neutralidade do governo que se tomadas à letra teriam o resultado de praticamente paralisar a governação do país em tempo eleitoral. Aliás, parecem provocatórias e parte do jogo político porque quem as faz em geral tem prática similar onde exerce poder municipal. O mesmo acontece com as acusações mútuas de compra de votos que depois das eleições são esquecidas porque na realidade a cultura política vigente é de cultivar a dependência das pessoas como expediente político.

Um outro exemplo são as acusações repetidas feitas pelo líder do PAICV logo na noite das eleições de que Cabo Verde é uma democracia de fachada e a promessa de construir um Novo Cabo Verde. Se não fosse pelo facto de não ter maioria qualificada para rever a Constituição da República, à semelhança de populistas como Victor Orban fizeram na Hungria e antes na Polónia, seria de preocupar a todos, considerando os propósitos iliberais que em outras ocasiões exprimiu e que incidiam fundamentalmente no controlo do poder judicial e de outros órgãos constitucionais autónomos sobre o exercício do poder pelo executivo. Mesmo assim a disponibilidade que tem demonstrado em desafiar as normas e procedimentos já devidamente sedimentados no país dá ideia do tipo de desafio que o seu futuro governo irá representar para o país na construção do “Novo Cabo Verde ” que propõe.

Essas engenharias sociais, criação do homem novo, “construção de um novo Cabo Verde ” nos países onde foram tentadas, resultarem em atrasos no desenvolvimento, perdas de oportunidade, e em alguns casos, em desastres humanitários terríveis. Quando se está perante um mundo a reconstituir-se em termos geoeconómicos e geopolíticos como agora está a acontecer, é complicado aventurar-se sem corrimão de segurança e com fiscalização enfraquecida. Ainda mais se a visão que se quer projectar e embarcar toda a gente mais lembra utopias do passado do que um futuro construído com solidez e na base do realismo e do pragmatismo.

Um contrapeso para equilibrar uma proposta de incursão nesse caminho duvidoso podia ser o presidente da república no âmbito das suas funções de garantir o regular funcionamento das instituições. É, contudo, duvidoso que isso venha acontecer considerando que o actual titular do cargo encontra-se numa posição politicamente frágil. A seis meses da eleição presidencial e pertencendo originariamente ao mesmo extracto político do partido vencedor das legislativas, o PR depende do apoio dessa maioria para ganhar um segundo mandato. E não parece que isso esteja garantido.

O problema estaria na forma como teria sido visto a sua posição na luta renhida pela presidência do PAICV no ano passado. Não era favorável à actual liderança. Entretanto, com a convergência de apoios ao Francisco Carvalho nas vésperas das eleições legislativas, poder-se-á tomar como um sinal de aproximação a presença do actual Chefe da Casa Civil da presidência da república num desses encontros. A isso deve-se juntar a agenda carregada do PR depois da marcação das eleições legislativas junto a vários municípios das quatro ilhas visitadas e depois em Portugal, na comunidade emigrada e entre os jovens. A temática básica desses encontros não poucas vezes extravasa-se para a área de governação com particular incidência nas questões mais sensíveis no debate entre o governo e o maior partido da oposição.

A partir de uma necessidade de sinalizar aproximação para eventualmente assegurar apoio, dificilmente se pode ficar na melhor posição de árbitro e moderador que o equilíbrio e estabilidade do sistema político exige. Na situação em que numa questão de dias se vai ter um chefe de governo com disposição várias vezes reiterada de contornar ou ultrapassar as normas e procedimentos democráticos para atingir os seus objectivos, uma eventual fragilidade da função do PR trará muitas complicações. Um outro factor a ter em conta no que respeita ao checks and balance do sistema político poderá ser a oposição que o MpD será capaz de efectivar enquanto estiver a recompor-se da derrota sofrida nas urnas.

A decisão tomada pelo partido, na sequência da pesada derrota nas eleições autárquicas de 1 de Dezembro de 2024, de não reagir com suficiente rapidez e determinação para se adequar ao novo ambiente político provavelmente ter-lhe-à custado a possibilidade de sair vitorioso nas eleições legislativas. Levou quase dois meses, fins de Janeiro de 2025, para se reunir numa direcção nacional. A opção por não realizar uma convenção do partido para legitimar uma candidatura e uma liderança a presentar nas eleições legislativas retirou-lhe a possibilidade de durante mais de um ano engajar de uma outra forma a sociedade e sentir o seu pulso quanto aos desafios do momento e as expectativas para o futuro.

Também não o motivou para galvanizar estruturas do partido nas ilhas em debate frutífero para a construção de uma visão a apresentar ao país e à sociedade, nem criou a oportunidade para o despontar de novas personalidades, de novas ideias e de futuros dirigentes. Em consequência, o partido afunilou toda a sua actuação política em função do líder, transformado em maior activo, como se pode constatar na forma como a campanha eleitoral foi conduzida. Não estranha que o partido exaurido e falho de novas ideias não tenha tido capacidade para dar uma resposta ao discurso populista dos adversários. Faltou a visão que poderia contrapor ao convite à irrazoabilidade, à impaciência e às expectativas excessivas inerentes ao populismo. E no fim, o líder depois de contabilizar os anos de política, os cargos exercidos e afirmar que há vida para além da política, partiu figurativamente para o seu “footing” matinal.

Parece ser esse o destino dos partidos nas democracias que, em vez de ter vida interna e em diálogo com a sociedade, focam toda a atenção no líder, transformado num chefe à volta do qual tudo gira e em relação ao qual todos se submetem, embriagados pela vontade de conquistar e manter o poder. O legado do partido tende a perder-se, o mesmo acontecendo com as referências e também com a capacidade de renovação em resposta à mudança dos tempos. O resultado para os cidadãos eleitores é para uns considerar que não há diferenças entre os partidos e para outros sentirem-se atraídos pelos extremos do discurso político e das promessas, apostando nos populistas, mesmo que as propostas sejam irrealistas, a competência das lideranças seja duvidosa e a liberdade e a própria prosperidade fiquem em perigo.

O povo escolheu um caminho complicado no dia 17 de Maio. É fundamental que o país conserve toda a sua capacidade para enfrentar percalços no caminho que poderão vir a surgir. Também que mantenha seguro e funcional os mecanismos democráticos necessários para garantir o controlo democrático do poder e assegurar os mecanismos que futuramente poderão permitir fazer as ratificações necessárias na orientação do país, caso se desvie dos seus valores de liberdade, de democracia e do Estado de Direito.

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277 de 20 de Maio de 2026.