Aprovada a moção de confiança por uma maioria absoluta de 37 deputados (metade mais um) na passada sexta-feira, o governo que até então limitava-se à gestão corrente passou a ter plenos poderes e a ser politicamente responsável apenas perante a Assembleia Nacional. As consequências resultantes da forma como foi conduzido o processo de transferência de poderes na sequência das eleições de 17 de Maio já se fazem sentir. O presidente da república, em declarações à imprensa, quando questionado sobre o processo em que a pessoa do primeiro-ministro é acusada apelou à calma da sociedade e reiterou que o PM conserva toda a legitimidade democrática para continuar a exercer as suas funções enquanto o processo segue os trâmites legais.
É evidente que as consequências não vão ficar por aí. Aliás, o facto do PR vir dar explicações sobre o processo e justificar a sua escolha para primeiro-ministro, desculpando-se com a posição do MpD que diferentemente da UCID não se referiu à condição de arguido do indigitado primeiro-ministro, revela a sua fragilidade. Era público desde dos fins de Dezembro último que Francisco Carvalho já tinha sido constituído arguido no processo que agora é acusado de crimes. Depois de ter decidido ignorar a situação e avançar com a indigitação, o PR não assume que, perante a acusação deduzida, o facto novo da acusação pelo Ministério Público, devia ter ponderado uma saída para o imbróglio quando o governo nomeado era ainda, segundo os constitucionalistas, uma espécie de governo provisório porque sujeito à aprovação de uma moção de confiança para ser efectivo.
A nomeação do primeiro-ministro é sempre uma escolha do PR mesmo se constitucionalmente deve primeiro ouvir os partidos e ter em conta os resultados eleitorais. Nas eleições legislativas são eleitos os deputados e não um primeiro-ministro apesar dos partidos darem a conhecer os respectivos candidatos ao cargo. Nos regimes parlamentares, o PR pode recusar a proposta de PM do partido vencedor e até pode acontecer que nomeie um candidato de um partido que não conseguiu a maioria dos votos nas eleições desde que que ele consiga uma maioria de apoio no parlamento, como foi no caso do António Costa, em Portugal, em 2016.
Deparando-se perante um caso de acusações graves apuradas em inquérito criminal contra membros do Governo, em especial o PM, que, para os referidos constitucionalistas, configura como um dos legitimante da competência presidencial de demissão do governo, no quadro das suas funções de assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, o PR devia ter encontrado uma saída que poupasse ao país situações mais complicadas no futuro. Considerações eleitorais para um presidente da república em fim de mandato e certamente à procura de renovação no cargo poderão ter pesado na decisão de se omitir quando mais se precisava de um árbitro e moderador do sistema político.
O facto é que o problema vai persistir e provavelmente agravar-se ao chegar o momento em que a requerimento do PGR dirigido à Assembleia Nacional para prosseguimento do processo se solicitar a suspensão do cargo de PM. Se houver recusa da maioria parlamentar o país terá que enfrentar os consequentes desprestígio e perturbação no funcionamento das instituições que irão obrigar a uma tomada de posição do PR. Se se avançar com o julgamento e no caso de condenação não se pode excluir a hipótese de, segundo a lei 85/2005 de crimes de responsabilidade dos titulares de cargos políticos, penas de perda de mandato, de demissão do cargo ou de impossibilitado de ser reeleito ou exercer qualquer outro cargo político num período de dois a cinco anos.
A haver um desfecho nesse sentido não se pode excluir a demissão do primeiro-ministro e consequente demissão do governo e instabilidade político-institucional que se iria criar. Talvez não seja de grande monta a dimensão do confronto entre a Assembleia Nacional e o poder judicial em caso de recusa de suspensão do cargo para prosseguimento do processo. De qualquer forma, mesmo sendo do mesmo partido, um novo governo não deixará de ser uma quebra no processo de governação do país que na sua esteira pode levar a crispação política a níveis nunca vistos e provocar ressentimentos profundos em certos sectores do eleitorado. Tudo isto podia ter sido evitado se, no momento certo em que o desenlace no acontecimento se tornou inevitável com a apresentação pública da acusação de 26 crimes ao actual primeiro-ministro pelo Ministério Público, fossem tomadas as medidas certas para sanar a situação.
Entrementes o que se vai ter é um governo com o primeiro-ministro de alguma forma distraído ou não totalmente focado na actividade governativa devido à existência de processos criminais e à necessidade de preparem a respectiva defesa. Para evitar isso é que, normalmente, políticos em funções governamentais, quando constituídos arguidos, pedem demissão do cargo. Um outro aspecto a ter em consideração é o impacto externo desse tipo de acusações, como se pode constatar logo de imediato nas declarações do governo de transição da Guiné-Bissau na semana passada em reacção ao apelo à libertação do líder do PAIGC. Preocupantes também serão as tentativas de retaliação política contra o Ministério Público que resultam da acusação feita pelo PM e pelo PAICV de que essa magistratura teria sido movida por razões de natureza política.
Claramente que as referências à revisão constitucional no respeitante ao Procurador-Geral da República e ao Tribunal de Contas têm como objectivo acertar contas com essas duas instituições. Apresentadas ostensivamente com o objectivo de aumentar a independência em relação ao poder político está-se, de facto, a inaugurar uma outra forma de exercer pressão política. É típico dos populistas tanto da direita como da esquerda ameaçar com a revisão da constituição. Dá vazão aos sentimentos antisistema que cultivam. Há poucos meses atrás, em sede própria, no parlamento, podiam ter debatido essas questões quando as duas bancadas aprovaram com maioria qualificada de dois terços as alterações nos estatutos das magistraturas. Aparentemente essas preocupações não existiam, mas agora estão no topo da agenda.
Na mesma linha vai-se querer avançar com a nomeação do PGR e do presidente do Tribunal de Contas. Têm o mandato expirado há mais de um ano e é, de facto, de maior importância que sejam nomeados novos titulares ou renovados os mandatos. A questão que se coloca é se o interesse público e a preocupação com a credibilidade das instituições irão nortear todo o processo de nomeação. E se é de esperar a devida ponderação no processo de escolha dos novos titulares de quem foi auditado e acusado de crimes por essas duas entidades e que reagiu procurando deslegitima-los ao considerar caducos os seus mandatos e ao apontar motivações políticas nos procedimentos seguidos no cumprimento da lei. A atitude institucional e ética que têm assumido não dá garantia de tal elevação.
Uma ideia que vem sendo forçada na sociedade é que conseguir a maioria absoluta sobrepõe-se a tudo. A democracia resultaria da aplicação do princípio maioritário sem preocupação com os limites impostos pelos direitos fundamentais e pelo respeito pelo primado da lei e da Constituição. O interesse comum seria definido por quem tem maioria, as leis seriam adequadas às suas necessidades e prioridades e a justiça subordina-se se ao poder purificador do voto maioritário. Daí que patriota é a maioria e a oposição é aceite se juntar em consensos com a maioria. Normas e procedimentos democráticos são úteis se forem convenientes. Quem ganha eleições fica acima da lei.
Nesse sentido para conseguir esses intentos não democráticos promove-se no país uma espécie de “guerra mental” que segundo um teórico russo Andrey Ilnitsky tem como alvo a identidade, a memória histórica, os valores, as tradições e o próprio código cultural através do qual as pessoas interpretam a realidade e visa moldar a nação como se quer. . Sem se darem conta, segundo um outro autor, as pessoas sujeitam-se a um “esforço sistemático para remodelar a consciência pública, enfraquecer as instituições e possivelmente alterar toda uma civilização”. Há que pôr um travão neste processo, mas infelizmente a falta de lealdade para com os princípios e valores constitucionais impedem que os principais protagonistas políticos assumam os seus papeis e estabeleçam o equilíbrio no sistema. O desejo de poder pessoal parece sobrepor-se a tudo.
Humberto Cardoso
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1286 de 22 de Julho de 2026.