Na sexta-feira, dia 31 de Julho, vai ter lugar o primeiro debate sobre o Estado da Nação da nova legislatura. Num caso inédito no país o debate acontece poucos dias após a aprovação da moção de confiança e a assunção pelo governo dos plenos poderes. O facto de praticamente ainda não ter contas para prestar pode levar a que, em querendo, o governo no debate incida sobre o que pretende fazer, quais as prioridades e que recursos precisa mobilizar e realocar, algo que a apresentação do orçamento rectificativo pode ajudar na quantificação. E que a oposição, em sede do contraditório, se fixe mais na discussão do futuro do que na defesa do passado. A alternativa é o debate desembocar em mais um episódio da campanha eleitoral passada com a repetição dos argumentos já utilizados e com as anteriores demonstrações de crispação política.
Tomando como ponto de partida o relatório de enquadramento do orçamento rectificativo a ser apresentado amanhã, 30 de Julho, na Assembleia Nacional, constata-se que há convergência quanto ao estado actual do país: aponta-se para um crescimento real do PIB de 5,8% em 2026; projecta-se que a inflação de 2,3% se mantenha em 2026; assume-se que a taxa de desemprego reduziu para 6,2 % em 2025, menos 1,8% do que em 2024; nota-se que as reservas de divisas asseguram 8,4 meses de importações; e espera-se que a dívida pública que se encontrava em 101.1% do PIB em 2025 se situe em 94.1% do PIB no final de 2026. Se isso for assumido, o debate poderá ser desenvolvido numa perspectiva construtiva, mesmo nas discussões das prioridades do governo e dos mecanismos encontrados para garantir a gratuitidade na educação, na saúde e nos transportes.
Claramente que a percepção que se tem hoje do estado do país não é a mesma daquela que há dois meses atrás era expressa nos mídias, nas redes sociais e até se sentia no ar. Era algo acintoso, apesar de que, como está referido no relatório, a solidez dos principais indicadores macroeconómicos já vaticinava perspectivas globalmente favoráveis para 2026. Ou seja, a percepção que se alimentou durante vários meses desde 2025 de que Cabo Verde estaria num estado caótico ou à beira do caos era em boa parte forjada.
É verdade que houve situações complicadas como a dos transportes interilhas ou da energia e água na Praia. Também que problemas laborais sempre existiram e os mais complexos envolvendo professores e outras classes profissionais do sector público tendem a arrastar-se e são facilmente politizadas. Ou então, que aqui ou acolá surgiam problemas de pestes como as de ratos, de galinhas de mato e da lagarta do cartucho do milho. Passadas as eleições e ainda sem um novo governo, aparentemente tudo se normalizou, o Estado funcionou regularmente, os salários e pensões foram pagos, os serviços operaram sem problema e as instituições a todos os níveis desempenharam o seu papel. Muitas das questões que ocupavam o espaço público e dominavam as notícias e as redes sociais como que passaram para o segundo ou terceiro plano a ponto de não se distinguirem muito do ruído social e político de todos os dias.
A impressão com que se fica é que a sucessão de ocorrências aparentemente caóticas que dominaram a esfera pública durante meses seguidos acabaram por criar um sentimento generalizado de um país em vias de uma falha sistémica. Percebe-se agora com clareza que boa parte da indignação e do ressentimento gerado e expresso, particularmente nas redes sociais, era parte de uma estratégia eleitoral. Nas vésperas das eleições legislativas procurava-se criar uma realidade alternativa de descalabro de um país que afinal estava funcional, não obstante os percalços e as tensões próprias das democracias.
O efeito era amplificado pelos mídia, que se retroalimentavam servindo-se das redes sociais, e pelos actores políticos que se desdobravam em passar a imagem de um país em vias de colapso do seu sistema de saúde, impotente perante a emigração massiva dos jovens e de falha generalizada, designadamente nos transportes, energia, distribuição de água e gás e no controlo de pragas. O resultado dessas investidas é que o confronto de visões e de propostas de governação que devia constar da campanha eleitoral não se verificou, ficando as promessas por soluções de gratuitidade dos serviços públicos em “risco de colapso”, como saúde e transportes, e de ensino superior para desincentivar a saída dos jovens. Para obstaculizar qualquer possibilidade de debate lançou-se a desconfiança sobre os dados estatísticos do país, pondo em dúvida os indicadores usados pelo BCV, o FMI e outras organizações internacionais, que felizmente já constam do relatório de enquadramento do orçamento rectificativo.
Como bem assinalam vários politólogos, nas democracias não é apenas liberdade de expressão que conta. É fundamental que os cidadãos tenham também algum nível de compreensão das políticas públicas propostas pelos governos e pelos partidos. De facto, para o diálogo democrático importa saber em que consistem essas políticas políticas, qual é o processo decisório e como devem ser monitorizadas no processo de implementação e posteriormente avaliadas. O aparecimento das políticas populistas que tendem a responder aos problemas complexos da sociedade com soluções simplistas, que mais mexem emotivamente com as pessoas do que convidam à reflexão e à participação política, veio revelar o buraco deixado pela falta de debate enriquecedor e construtivo nas democracias.
Nota-se cada vez mais uma espécie de infantilização da sociedade para qual vem contribuindo os partidos do arco da governação que pouco fazem para explicar as suas políticas e investem mais na sedução dos apoiantes para garantir a sua lealdade. A crescente polarização política tem acelerado o processo e o aparecimento de populismos de esquerda e de direita ameaça levar à tribalização política em que o diálogo democrático é efectivamente interrompido. Nas últimas eleições em Cabo Verde viram-se as consequências disso. Quando o mundo está a ser reconfigurado, movido por tensões geopolíticos e por interesses geoeconómicos, o país falhou em discutir propriamente o seu futuro.
Sem consenso sobre a realidade nacional, pressionada para desconfiar das instituições de fiscalização do poder político, mas ciente que há que mudar o rumo para mais rapidamente ter prosperidade, a sociedade deixou-se seduzir pelo canto das sereias dos almoços grátis e do amparo do Estado. As propostas alternativas não foram suficientemente ousadas e convincentes em deixar para trás o mais do mesmo e perderam. Agora há que perguntar se o novo governo, ao despejar mais dinheiro, aparentemente sem critério e sem políticas claras, em certos sectores, não estará mais inclinado em reforçar a sua 'autenticidade' juntos dos seguidores do que em potenciar políticas capazes de trazer mais riqueza e sustentabilidade para a nação.
Da capacidade de arrepiar caminho ou de introduzir políticas alternativas, que permitam ao país cavalgar a nova realidade de muitas incertezas e imprevistos, irá depender muito do que a oposição saberá ser na nova realidade. Até ao momento os sinais não têm sido reconfortantes. As divisões sem sentido e a preferência por tácticas autodestrutivas na luta política interna não auguram nada de bom. Nem tão pouco são auspiciosos os sinais de subordinação aos caprichos da maioria.
A democracia exige uma oposição forte, resoluta e inovadora o suficiente para ser alternativa no futuro. Agora que aparentemente na discussão do orçamento rectificativo há convergência sobre a realidade dos indicadores macroenonómicos do país é fundamental que a dinâmica, governo e a sua maioria por um lado e oposição do outro lado, funcione, cumprindo plenamente as respectivas competências. Por aí é que se poderá, eventualmente, encontrar as melhores soluções para os problemas do país, para fazer crescer a riqueza nacional e fazer chegar a todos os meios para se realizarem, serem prósperos e felizes.
Humberto Cardoso
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1287 de 29 de Julho de 2026.