Já em Fevereiro e com as eleições legislativas marcadas para 17 de Maio e as presidenciais para 15 de Novembro torna-se claro para qualquer observador que o país está em pré-campanha de aquecimento para os próximos confrontos eleitorais de Cabo Verde. Percebe-se o envolvimento de forma directa ou indirecta de todos os titulares de órgãos de poder político e dos dirigentes e militantes dos partidos na corrida para na eleição determinante da governação – as legislativas. É o certame eleitoral que mais pode afectar os outros. De facto, mesmo em relação às eleições presidenciais, distantes mais de seis meses das legislativas para evitar contágio e com o incumbente à procura de um segundo mandato, não se pode garantir que nas circunstâncias actuais fique imune ao que vier a ser apurado como vencedor no mês de Maio.
O momento eleitoral acontece num ambiente de tensões geopolíticas e geoeconómicas globais e regionais que ameaçam reconfigurar as relações entre os países, deixando para trás em grande medida as regras consolidadas nos últimos oitenta anos que regularam as relações internacionais. A isso deve-se associar a manifestação de fenómenos emergentes de populismo de esquerda e de direita nas democracias que trazem uma complexidade inesperada, mas crítica para os embates políticos. A extrema polarização que provocam não deveria deixar ninguém indiferente porque tende a bloquear o diálogo democrático. E é algo que devia ser a última coisa a acontecer quando se vive mudanças rápidas e a história acelera. Corre-se o risco de não se adaptar às novas circunstâncias e no diálogo de surdos que se instala de se ficar pelos mesmos métodos e pela mesmas abordagens e por soluções já testadas e provadamente gastas.
Impõe-se, portanto, uma maior dinâmica da sociedade para agitar o status quo. É fundamental impulsionar e influenciar o debate político de forma a forçar os partidos a sair do habitual jogo político e abandonar os tacticismos que não deixam espaço para a apresentação e discussão de propostas novas e inovadoras, à altura dos desafios emergentes. Para isso, há que fazer um esforço para não cair na tribalização da política que momentos pré-eleitorais, por natureza polarizantes, tendem a produzir, arrastando todos pela cor da camisola e sem deixar espaço para se ouvir outras vozes. Nem para cair na neutralidade cínica de que “são todos o mesmo” e que, na prática, acaba por contribuir para a manutenção do actual estado das coisas caracterizado pela fraca participação cidadã na política, pela arregimentação nas causas partidárias e o não comprometimento activo com a defesa da democracia.
A verdade é que Cabo Verde e os cabo-verdianos não estão sozinhos no mundo e o mundo não espera por ninguém. Um outro factor a ter em consideração é a tendência para o transacionalismo puro e duro nas relações internacionais em detrimento de regras mutuamente aceites com base na partilha de valores e princípios assumidos. Sabe-se que não favorece o multilateralismo e a solidariedade que principalmente os pequenos estados como Cabo Verde precisam para se desenvolverem. Ou seja, as coisam tendem a evoluir para o pior e sem essas salvaguardas é essencial que se procure diminuir as vulnerabilidades e precaver contra eventuais choques externos, construindo resiliência em sectores-chave.
Para isso, um país de parcos recursos como Cabo Verde tem que apostar em fazer o máximo do que o conhecimento, o pensamento crítico, a pluralidade de opiniões, o espírito de iniciativa e a criatividade podem proporcionar. Claramente que isso não acontece se reina a tribalização da esfera pública, se todos não se respeitam como igualmente patriotas e se não se reconhece boa-fé em relação aos interesses do país, não obstante as opiniões contrárias quanto ao caminho que deve ser seguido. Pior ainda se se deixa desenvolver uma forma de fazer política baseada no ressentimento com o objectivo de bloquear o diálogo na sociedade sob o pretexto de que o jogo democrático está viciado a favor das “elites”.
Aí interrompe-se tudo e não há cooperação nem solidariedade, ninguém escuta o outro na busca de soluções e frustrações acumulam-se dando origem a mais ressentimento. Estabelece-se um círculo vicioso estéril de ideias, mas a fervilhar de paixões e com a esperança em queda, moída pela impaciência com promessas fantasiosas de se ter tudo ao mesmo tempo e em todo o lugar. Sobram assim as paixões que alimentam os populismos proponentes de soluções simples para situações complexas e que sempre encontram bodes expiatórios quando confrontados com as consequências da sua incompetência e incapacidade de cumprir as regras do jogo democrático e de cumprir as promessas feitas.
A encruzilhada em que o mundo se encontra neste momento exige de todos, mas em particular da sociedade, que se veja o país com um outro olhar de esperança no futuro, mas ciente das dificuldades enormes para dar continuidade ao desenvolvimento no passo desejado. Segundo o renomado economista Eswar Prasad, no seu último livro The Doom Loop, o mundo está preso num ciclo vicioso destrutivo entre a economia, a política interna e a geopolítica. Acrescenta ainda que soluções antigas não resolvem a actual situação. Há que encontrar soluções radicalmente novas. Isso vai depender obviamente da capacidade de cada país e de cada sociedade de se mobilizar para ultrapassar os constrangimentos muitas vezes de natureza política, mas também socio-económicas e cultural para essa outra abordagem que poderá levar a soluções novas.
Está provado que é nas democracias liberais e constitucionais que se pode mobilizar o esforço de todos para se encontrar as melhores saídas da encruzilhada actual. A liberdade solta as energias e a criatividade, o Estado de Direito propicia os instrumentos para canalizar o esforço, para dirimir eventuais conflitos e manter a cooperação necessária para a criação sustentável da riqueza. As eleições permitem que se faça escolha de políticas e de governantes por tempo determinado e também que sejam substituídos pacificamente caso for necessário. Por todas essas razões, defender a democracia é fundamental para se continuar a ter esperança no futuro.
Os seus inimigos sabem disso e tudo fazem para minar a esperança procurando manter as pessoas num estado de indignação permanente, alimentando ressentimentos e promovendo a vitimização. Levando as paixões ao paroxismo, passa-se a pensar pela cabeça do partido e do seu chefe, não fica espaço para diálogo e compromisso. Também muito dificilmente vão se encontrar as políticas certas porque, sem diálogo livre e plural, não há como rever ou descartar políticas e ter rasgos do tipo “fora da caixa” que abrem a possibilidade de adaptação a situações novas e desafiantes e a imprevistos que possam aparecer.
Cabo Verde precisa da sua democracia e de pô-la a funcionar em pleno para poder responder aos extraordinários desafios que se colocam actualmente. A proximidade das eleições é um bom momento para se dar à democracia um empurrão vigoroso na direcção que salvaguarda a nossa dignidade e abre as portas para uma contínua prosperidade.
Humberto Cardoso
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1262 de 04 de Fevereiro de 2026.
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