quinta-feira, 2 de abril de 2026

Processo de formação das listas para deputados, um autêntico raio-X dos partidos

 Na sessão da Assembleia Nacional de 25 e 26 de Março foi aflorada a ideia de dar

por finda a actividade do parlamento nesta legislatura, talvez com uma última

sessão no mês de Abril. Sugeriu-se que a questão fosse adiada para discussão na

conferência de representantes a convocar. O argumento seria que muitos dos actuais deputados são 

candidatos às eleições de 17 de Maio e nessa condição, nas reuniões plenárias, estariam em posição de 

fazer propaganda política a partir do parlamento, o que violaria a neutralidade e a imparcialidade das 

entidades públicas (art. 97º do Código Eleitoral), em particular para os partidos sem representação 

parlamentar. Acrescentou-se ainda que indo à frente com as sessões estar-se-ia a contrariar o artigo 383º 

do mesmo código, que supostamente obriga os candidatos a suspenderem as suas funções.

 

Uma primeira consequência da aceitação desses argumentos seria um efectivo

encurtamento do mandato dos deputados e da legislatura que só deveria terminar no

início da nova legislatura, ou seja, segundo a Constituição, no vigésimo dia subsequente

à publicação dos resultados eleitorais no BO. No caso actual de realização das eleições

a 17 de Maio e dando o espaço de uma semana para a publicação dos resultados, o dia

do fim da actual legislatura e início da nova bem pode ser 8 de Junho. E é um princípio

central das democracias que os mandatos dos órgãos de poder políticos eleitos são fixos:

não podem ser alongados ou encurtados senão nos casos previstos directamente na

Constituição. Não é, pois, caminho a seguir com os argumentos apresentados, até

porque o artigo 97º da neutralidade no seu número 5 exclui os titulares de órgãos de

soberania das restrições previstas a outras entidades e o citado artigo 383º de suspensão

de funções só se aplica aos candidatos a presidente da república.


Não deixa de ser curioso a facilidade com que em nome da “neutralidade e

imparcialidade” necessárias para a realização de eleições se procura impor limitações à

governação, quase colocando o governo em modo de gestão e suspendendo a actividade

parlamentar. Não há a mesma preocupação em escrutinar a actuação do presidente da

república que, enquanto órgão de soberania, também devia manter rigorosa

neutralidade perante as diversas candidaturas. De facto, não peca muito pela

moderação a movimentação que o PR tem feito pelos municípios do país desde da

publicação da data das eleições legislativas no BO de 9 de Fevereiro. Pelos registos na

comunicação social até fins de Março visitou 4 ilhas (Fogo, Sal, S. Vicente e Santo

Antão) e sete municípios, para além das visitas a vários municípios da ilha de Santiago,

e não se pode dizer que parte importante da mensagem sistematicamente passada é

realmente neutra.

 

Aliás, pelas incursões na descentralização, pelo apelo à transferência de mais recursos e

competências aos municípios, pela problematização da situação económica e social do

país a impressão que se fica é de uma visão alternativa da governação do país e,

portanto, mais própria de um candidato a primeiro-ministro do que de um presidente da

república. De facto, apresentando-se como uma espécie de “Champion dos Municípios”

na relação com o Poder Central não é claro que contribua para o normal funcionamento

na relação entre os poderes local e central que a Constituição, com as competências

dadas à Assembleia Nacional e ao governo, procura assegurar. Em período eleitoral em

que propostas de governação, entre as quais políticas de descentralização se confrontam,

ser porta-voz de uma perspectiva diferente da existente legalmente no país dificilmente

pode ser considerada uma postura de neutralidade e de imparcialidade na disputa entre

os partidos.


Nota-se na abordagem do PR similaridades com posicionamentos do presidente da

república em sistemas político próximos que o constitucionalista Vital Moreira

classificou de “magistratura de interferência”. Ao invés do foco em manter o regular

funcionamento das instituições e o papel constitucional de moderador do sistema, a

tendência é para entrar em áreas governativas e no caso, pela via dos municípios, na

disputa por recursos e competências. O resultado é mais protagonismo dos municípios

na vida política nacional a acrescentar ao tempo parlamentar que é consumido em

questões das câmaras municipais e ao envolvimento do governo nos municípios, num

misto de cooperação e competição, com variações num sentido ou noutro de acordo com

certos factores, entre os quais, proximidades pessoais e cor política.


Tudo isso parece ir ao encontro do aforismo de que “all politics is local” (toda a política

é local), mas com um lado complicado. Há sinais de que o caciquismo notório nas

câmaras municipais, as insuficiências na gestão municipal e a fragilidade dos

instrumentos de controlo e ainda o uso discricionário de meios e recursos para a criação

de bases de apoio de suporte à reeleição dos presidentes de câmara podem ser

potenciados para criar uma força política instrumentalizável para vários propósitos.

Pode, nomeadamente, servir para autonomizar o presidente da câmara em relação ao

partido que o propôs até a ponto de se virar e capturar o próprio partido, como

aconteceu na Praia no ano passado. Em outras municípios poderá não servir pretensões

nacionais, mas não deixará de se mostrar útil nos jogos de influência e nas lutas

intestinas dos partidos, tanto ao nível da ilha como do país.


Pela forma como é criada essa base política acaba por ter um papel nocivo nos partidos,

porque não constituindo sensibilidades políticas, mas sim clientelas suportadas por laços

de dependência, a democracia interna não é incentivada. Em vez de discussão de ideias

e de projectos políticos tende a reinar a intriga, o conluio e o ressentimento. Quando se

adoptou o modelo de eleição directa dos líderes, foi a grande oportunidade para serem

arregimentadas para eleger o candidato preferido, reduzir a puro formalismo as reuniões

dos órgãos colegiais e efectivamente esvaziar o debate de ideias internamente e com a

sociedade.


Assim como se viu com particular transparência no processo de formação das listas para

deputados da nação, um autêntico raio x dos partidos, também se mobilizam sempre que

cargos no sistema partidário e estatal estão para serem preenchidos. Enquanto força

organizada dentro do partido podem sempre sonegar ou limitar a interacção com a

estrutura partidária e depois convenientemente acusar de afastamento os tidos como

rivais, tanto por interesses locais como nacionais. O discurso da renovação, na ausência

de debate interno de ideias e de projectos e falta de espaço na organização para

crescimento de políticos focados no bem comum, acaba por ser um expediente para

filtrar fora quem funciona na base de ideias e convicções.


Não estranha que à medida que o tempo passa se note a degradação das instituições

preenchidas nos cargos de direcção por esses métodos enviesados. Outrossim, procura-

se compensar o vazio de ideias e o discurso raso com excesso de protagonismos e actos

performativos. Concomitantemente, não se dá a devida atenção à necessidade de

cumprir com as normas e os procedimentos democráticos e há sempre disponibilidade

para encontrar expedientes, com foi referido, para se encurtar legislaturas, limitar

poderes quando for conveniente e permitir interferência com violação do princípio da

separação de poderes. Os partidos, porque instrumentais nessa degradação e na gestão

do “mais do mesmo” do país, acabam por convergir nas políticas focadas na

distribuição. Compreende-se assim que nas democracias em crise haja a tentação de

procurar soluções nos extremos.


Cabo Verde é um país que nasceu na escassez extrema. Nunca devia deixar-se tentar

pela política de distribuição da escassez que o modelo de reciclagem da ajuda externa

engendrou. Perdeu em liberdade, em autonomia e em oportunidade. A enfase no

crescimento económico, iniciado nos anos noventa – que incentivou a iniciativa e a

inovação e premiou o mérito, aumentou a produtividade e, na sequência, os rendimentos

e a qualidade de vida - parece estar a soçobrar sob o impacto do populismo, com

promessas de distribuição e mais dependência. Há que inflectir o processo para ter os

requisitos para criar riqueza e realmente poder distribuir. Também construir uma

sociedade focada na busca da verdade e do conhecimento e que se revê nos valores da

autonomia e da decência. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1270 de 1 de Abril de 2026.

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